Sabrina Noivas 65
  (How Much Is That Couple In The Window?)

Venha conhecer o casal da vitrine viva da loja de departamento Derring Brothers. E sua nica chance!
Escolhida como modelo para a vitrine viva de uma loja, Jennifer Westgate teria de representar o papel de uma linda noiva apaixonada. E cumpriu a tarefa com perfeio! Preparou refeies com aparelhos da seo de eletrodomsticos, vestiu camisolas provocantes fornecidas pelo setor de roupas e, com seu "marido", testou a maciez da melhor cama de casal da loja. S que logo ficou evidente que ele estava levando o papel de recm-casado a srio demais!

Digitalizao e correo: Nina
 

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1998
Publicao original: 1996
Gnero: Romance histrico contemporneo
Estado da Obra: Corrigida


Srie Million-Dollar Marriages
Ordem	Ttulo	Ebooks	Data
1	How Much Is That Couple In The Window?	Sabrina Noivas 65 -
Casados Por Uma Semana	Feb-1996

2	Blind-Date Bride
Sabrina Noivas 83 -
Um Casamento Milionrio	Aug-1996

3	Me? Marry You?
??????	Jan-1997











O Que Transeuntes Esto
Dizendo Sobre Jennifer e Charles,
O Casal da Vitrine:

"Por que ser que a vitrine est to embaada, esta noite? Eu no consigo ver o que eles esto fazendo!"  Henrietta, 82 anos.

"Ser que eles so casados de verdade?"  Linda, 33 anos.

"No  possvel que eles no tenham vergonha de estar ali."  John, 57 anos.

"Quanto custa o casal da vitrine?  Timmy, 9 anos.

CAPITULO I

Com um breve bocejo, Jennifer Westgate abriu a edio matutina do Chicago Tribune. Comprara o exemplar antes de entrar no trem.
Porm, seu sono desapareceu no mesmo instante ao reconhecer um nome familiar impresso em letras grandes em uma das pginas principais do jornal: LOJA DE DEPARTAMENTOS DERRING BROTHERS.
Ao ler a notcia, ficou boquiaberta. Ento, os rumores eram verdadeiros!
Olhou pela janela do trem em movimento, nem um pouco satisfeita com o que acabara de ler. Fazia semanas que o pessoal da loja andava comentando a nova ideia publicitria do presidente da empresa. Desde o incio, ela no acreditara que eles fossem exibir os funcionrios da loja nas vitrines. Se queriam pessoas de verdade, em vez de manequins, por que no contratar modelos profissionais?, pensou.
E, por ser funcionria da loja, estava correndo srios riscos de ser convocada. S de pensar nisso, sentiu um frio na barriga. No era tmida, mas tambm nunca fora exi-bicionista. Se fosse escolhida, o que Peter iria pensar? Tentou se convencer de que no havia motivo para se preocupar, j que a loja tinha centenas de funcionrios.
Entretanto, uma espcie de mau pressgio parecia lhe dizer que ela acabaria envolvida naquilo. Na semana anterior, o sr. James, maquiador do setor de cosmticos, havia aparecido misteriosamente no setor de eletrodomsticos, onde ela trabalhava.
Por algum motivo, comeara a conversar com ela sob banalidades, observando seu rosto com muita ateno, como se a estivesse analisando. A certa altura da conversa, comentou que uma sombra cor de cobre ressaltaria linda mente os olhos verdes de Jennifer. Surpresa com o comentrio, que no tinha nada a ver com o que eles estava: falando antes, ela se apressara em dizer que no gostava de usar maquiagem.	
O sr. James parecera espantado com a resposta e se retirara com um sorriso forado.
. Porm, aquele no fora o nico incidente que a deixara desconfiada. Um ms antes disso, Jasper Derring em pessoa fizera um estudo silencioso de sua aparncia.
Acontecera em uma quarta-feira, durante uma das raras visitas que o dono fizera  empresa, depois do enfarte. 0 milionrio excntrico e simptico, com seu costumeiro chapu de feltro com uma pena do lado, entrara no setor de eletrodomsticos de repente, causando um pequeno alvoroo nos funcionrios.
Ele parara ao ver Jennifer, parecendo analis-la com seu olhar perspicaz. Ela forara um sorriso polido, sem saber ao certo como agir. Jasper a cumprimentara com uma leve inclinao de cabea, comentando como o dia estava bonito, embora Jennifer houvesse visto antes que estivera nevando. Jasper sara pouco depois, em uma atitude misteriosa.
A partir daquele dia, Jennifer passara a desconfiar de que havia algo no ar, mas no tinha ideia do que poderia ser. Ao ouvir os rumores sobre a vitrine viva que a loja exibiria no ms de dezembro, comeara a ficar preocupada.
Ainda assim, tentara se convencer de que no tinha motivo para tanto receio. Fazer uma consulta com um psiquiatra pareceria mais razovel do que ficar em uma vitrine o dia inteiro, sendo observada por todos os transeuntes da North Michigan Avenue.
Estava com vinte e seis anos e trabalhava para a Derring Brothers havia cinco. Recentemente, sentira-se orgulhosa, ao ser promovida para assistente de gerncia do setor de eletrodomsticos. Adorava trabalhar na loja e j havia feito muitas amizades por l.
No entanto, a poltica da empresa mudara nos ltimos meses. Jasper Derring no estava mais no comando dos negcios. Depois do enfarte que sofrera, no ms de julho, deixara o cargo de presidente para o filho, Charles Derring, com trinta e um anos, alm de lhe transferir metade das aes da empresa.
O conceituado padro conservador da loja estava adquirindo caractersticas modernas, e o investimento em propagandas para tev e jornais crescera consideravelmente. A ideia da vitrine viva deveria ser consequncia daquela nova imagem de modernismo, criada por Charles.
Jasper podia at ser excntrico, mas tinha os ps no cho. Ele tambm tinha classe, s que do tipo que no se adquire pelo dinheiro, mas pelo carter. Era casado com a mesma mulher havia dcadas. Pelo que se dizia, a me de Charles era uma refinada colecionadora de orqudeas. Em datas especiais, os dois costumavam presentear os empregados mais prximos com flores cultivadas na propriedade do casal, em Kenilworth.
Os Derring valorizavam antigas virtudes, como cortesia, integridade e respeito humano. Jasper acreditava na dedicao ao trabalho porque ele prprio trabalhara duro para conseguir formar seu imprio. No era do seu feitio exibir roupas e carros luxuosos, como os playboys costumavam fazer. Seu filho, Charles, por outro lado, tinha outra filosofia de vida.
 Aposto quanto quiser que isso foi ideia de Charles  disse Jennifer a Trudy Hargrove, naquela mesma manh.
Ele adora esse tipo de publicidade maluca.
	No duvido  anuiu Trudy, olhando a propaganda no jornal.
Trudy era uma enrgica mulher de meia-idade, com cabelos curtos, ligeiramente grisalhos. Ela era gerente da se-o de eletrodomsticos e chefe de Jennifer.
	A grande questo agora - quem ser escolhido para ir para a vitrine? _ perguntou Trudy.
	lenho o mau pressentimento de que serei eu  admitiu Jennifer.
Havia contado  chefe sobre os incidentes com Jasper Derring e com o sr. James.
	Ouvi dizer que contrataram James para trabalhar todas as manhs na semana anterior ao Natal  salientou Trudy.
	Bem, pelo menos isso pode me livrar. Eu disse a ele que detesto maquiagem.
Trudy sorriu.
	Se toda mulher tivesse esses seus cabelos castanho-aloirados e conseguisse ficar to bonita quanto voc sem maquiagem, garanto que no iriam querer usar cosmticos.
	Obrigada pelo elogio, mas no tenho como objetivo de vida ficar em uma vitrine servindo de motivo de piada para todo mundo. A propaganda do jornal est at incentivando as pessoas a virem acenar para os modelos da vitrine! No consigo imaginar nada mais embaraoso. Como Jasper Derring pde ter aprovado uma ideia to maluca?
	Ora, trata-se apenas de mais uma inveno de "Charles Talentoso"  ironizou a gerente, repetindo a piada que se tornara comum entre os funcionrios.
	"Charles Tanta", isso sim!
	Shh!  sussurrou Trudy, contendo o riso.  No deveria falar isso alto!
	"Charles Tanta", "Charles Tanta"!  repetiu Jennifer, de modo desafiador.
	Memorando para Jennifer Westgate.
Ela foi interrompida por um jovem chamado Rick, boy interno da loja. Ele estava rindo, com certeza do que a ouvira dizer.
	Para mim?
	Sim  confirmou ele.  Diretamente do presidente.
Entregou o envelope a ela, retirando-se em seguida.
Trudy se aproximou mais, para ver do que se tratava.
	De Charles? Abra logo, Jennifer!
	Espero que seja minha carta de demisso  ironizou ela.
"Prezada Jennifer,
Voc foi escolhida para ser a modelo de nossa campanha publicitria. Durante a semana anterior ao Natal, seu expediente ser das lOh da manh s lOh da noite. Receber um generoso bnus de final de ano pelo trabalho. Quero que almoce hoje comigo, para discutirmos os detalhes.
Charles Derring."
	Oh, Deus,  mesmo verdade  gemeu Jennifer, entregando o memorando a Trudy.
	Voc foi escolhida!  exclamou a gerente, entusiasmada.  No fique to aborrecida. Ser divertido! Alm do mais, receber um timo bnus.
	No vou aceitar  declarou Jennifer, sem se importar com o detalhe do bnus.
	Jennifer, encare isso como um elogio pela sua beleza. Se no fosse to linda, garanto que no teria sido escolhida. No ser bom recusar a proposta, poder ser prejudicada na empresa por no cooperar.
Jennifer mordeu o lbio, pensativa.
	Acho que tem razo  afirmou.  Mas voc sabe o quanto ele gosta de me provocar.
	Sim, eu sei  anuiu Trudy.  E voc devolve a provocao na mesma moeda, pelo que notei. Se algum que no os conhea presenciar uma discusso entre vocs, pensar que so casados.
	Deus me livre! Charles prefere as "loiras chamativas".
De sbito, Jennifer pensou em um detalhe importante.
	Quem mais ficar na vitrine comigo? Esto selecionando um modelo masculino tambm, no ? Acho que haver turnos de duas horas para cada casal.
	Connie, do RH, disse que escolhero apenas um casal.
Jennifer arregalou os olhos.
	O qu? Serei a nica mulher a ficar naquela vitrine durante sete dias das dez horas da manh s dez da noite?
	Como podem esperar que uma pessoa aguente isso? Quem ser meu parceiro? Trudy deu de ombros.
	No sei. Ouvi apenas comentrios sobre o processo de seleo. Talvez Connie tenha se enganado.
	J posso at imaginar o que Peter dir disso tudo  resmungou Jennifer.
	Peter? Voc se tornar famosa durante uma semana, ganhar um timo bnus, e ainda est preocupada com o que seu professorzinho vai pensar? H quanto tempo esto saindo juntos?
	Trs meses.
	E ele mal a beijou.
Jennifer desejou no haver desabafado tanto com Trudy sobre sua vida amorosa.
	Ele  professor de ingls  lembrou  gerente.  Pessoas da rea acadmica levam uma vida mais reservada.
	"Enfadonha"  o que voc quer dizer  corrigiu Trudy.
	Bem, Peter no vai gostar de ver a namorada aparecendo na vitrine de uma loja. Ser embaraoso para ele. Por que logo eu? No sou sexy nem algo do gnero. Oh, Deus, como sairei dessa encrenca?
	Peter?  disse Jennifer, quando uma voz masculina respondeu, do outro lado da linha.
Peter dava aulas na Universidade de Illinois, no lado oeste da cidade.
	Jennifer?
	Sim, sou eu. Desculpe-me por ligar agora, mas estou no intervalo e no posso telefonar em outro horrio. Gostaria de saber se voc pode jantar comigo essa noite. Precisamos conversar.
	Hum...  Ele pareceu estar verificando a agenda. --- Sim, estou livre. Quer que eu passe para apanh-la s seis horas? Ou est trabalhando at mais tarde?
	No. Mas logo estarei.
	Voc est bem? Parece preocupada.
Estou um pouco. E acho que voc tambm vai ficar Poderei dar um jeito de almoarmos juntos, se ajudar
 sugeriu Peter.
	Obrigada, mas no ser possvel. Terei de almoar com o presidente da empresa.
	Charles Derring?
	Sim. Fui convocada por meio de memorando esta ma nh. Preciso voltar para o trabalho agora. At mais.
Jennifer desligou antes mesmo de Peter se despedir. No conseguia parar de pensar no que ele diria quando ela contasse sobre a convocao. Com certeza, ele desaprovaria. Peter no gostava nem do fato de ela trabalhar em uma loja de departamentos. Vivia dizendo que Jennifer deveria terminar a faculdade e procurar um emprego "mais significativo". Quase sempre acabavam discutindo quando ela afirmava ter um futuro promissor na Derring Brothers, j que isso no impressionava Peter nem um pouco.
Depois de saber que ela trabalharia como modelo de vitrine, ele se armaria de mais argumentos. S lhe restava uma esperana...
Durante o almoo, talvez conseguisse convencer Charles a contratar outra moa. Nas poucas vezes em que haviam se encontrado pela loja, os dois travaram at uma certa amizade, j que ele sempre insistia em falar com ela, ainda que brevemente.
Com um pouco de sorte, ela o faria desistir da ideia de convoc-la para aquela tarefa embaraosa. Embora ele fosse rico e poderoso, devia haver um corao no fundo daquele peito. Valeria a pena tentar.

CAPITULO II

Pouco antes do meio-dia, Jennifer terminou de limpar uma prateleira diante da qual estivera ajoelhada nos ltimos minutos. Ao levantar a vista, deparou-se com Charles Derring a observ-la.
	Mergulhada no trabalho, como sempre  disse ele, com um sorriso charmoso.
Os cabelos loiros estavam impecveis, assim como o terno azul-marinho e a gravata pintada  mo. Charles era considerado um dos homens mais elegantes da cidade, e fora at citado como tal na lista de Mr. Blackwell. Era to perfeito na aparncia que at parecia injusto que tambm fosse to rico.
- Estou apenas tentando impressionar o presidente da empresa  ironizou ela.
Ficou de p, demonstrando mais respeito pela presena dele. Afinal, por mais que s vezes no se entendessem direito, ele era o presidente da Derring Brothers.
Charles limpou a garganta.
	Isso mesmo. Gosto de ver meus empregados dedicando-se ao trabalho.  Abaixando mais a voz, acrescentou:
 No seu caso, porm, seria bom parar um pouco de vez em quando, para mostrar que  humana.
	Terei de ouvir outro daqueles discursos sobre trabalho demais ser prejudicial?
	No sei. Est precisando ouvir um?  indagou Charles.
	Veio me apanhar para almoarmos, suponho?  mencionou ela, preferindo no responder  pergunta.
	Sups corretamente. Estou enganado ou percebi um leve ar de aborrecimento no ar?
	Eu no percebi nada  refutou Jennifer, fingindo inocncia.
Charles curvou os lbios para o lado, antes de dizer:
	Gosta do Brasserie?
Ele estava se referindo ao refinado restaurante que havia no stimo andar, e que tambm pertencia  loja.
	Sim, muito.
	timo. Ento, vamos almoar l para ganharmos tempo.
Minutos depois, passaram pela porta do restaurante. Ao reconhecer Charles, o maitre os conduziu direto at uma mesa com vista para a cidade. Jennifer sentiu-se embaraada com aquele tratamento diferenciado. Depois de fazerem os pedidos, Charles disse:
	E ento, o que acha de haver sido escolhida como nossa dama da vitrine?
Jennifer respirou fundo, ajeitando o guardanapo no colo.
	Para ser sincera, no estou muito empolgada com a ideia. Por que fui escolhida?
Charles pareceu surpreso com a pergunta.
	Bem, no sei o motivo exato. Deixei a seleo por conta da equipe de marketing. Eles estudaram todas as mulheres da loja e decidiram escolh-la. Disseram que, alm de bonita e elegante, voc tem um ar de inteligncia que servir para representar bem nossa empresa.
Jennifer sentiu-se lisonjeada, mas tambm ficou surpresa.
	Ento, no foi voc quem me escolheu?
	No. Mas confesso que fiquei aliviado ao saber que voc havia sido convocada.
	Aliviado?
Charles suspirou.
	J que terei de passar uma semana inteira em uma vitrine com uma mulher, fico feliz que seja algum que...
	Voc?  Jennifer o interrompeu.
	A ideia no foi minha, pode acreditar. Discuti sobre isso com meu pai durante um ms inteiro e perdi. Se meu pai no estivesse se recuperando do enfarte, eu no aceitaria de jeito nenhum. Mas prefiro no contrari-lo sob essas circunstncias. 
Jennifer franziu o cenho, confusa. No conseguia entender por que Jasper Derring deixaria que o prprio filho, presidente da empresa, passasse por aquela situao ridcula. Talvez o enfarte houvesse afetado at a sanidade do sr. Derring, pensou ela.
	E at irnico  continuou Charles , j que a ideia original foi minha.
	Imaginei isso.
O garom serviu a refeio e retirou-se com polidez.
	Fiquei chocado  admitiu Charles.  Alis, ainda estou. Quase me arrependi de haver tido a ideia, mas agora no h mais como voltar atrs. Meu pai est convencido de que ser uma tima publicidade se eu aparecer pessoalmente na vitrine. Por outro lado, tambm confesso que estou disposto a fazer qualquer coisa para aumentar a venda da loja nesse Natal. Isso terminaria meu primeiro ano como presidente com um verdadeiro boom nos lucros. Esse foi o outro motivo que me fez concordar com a deciso.
Ao observar o brilho de determinao nos penetrantes olhos azuis de Charles, Jennifer se deu conta de que estava conhecendo um novo lado da personalidade dele. Sempre pensara que ele no passava de um playboy que achava que a vida deveria ser levada facilmente. Aquela atitude de querer gerar lucros para a loja era, de fato, admirvel.
Desejo-lhe sorte na campanha, Charles, mas  que... 
Ele estreitou a vista.
Estou detestando isso tanto quanto voc, pode acreditar  afirmou, interrompendo-a.  No me diga que pretende fugir quando mais preciso de voc.
Jennifer arqueou as sobrancelhas.
	S no consigo me imaginar em uma vitrine, com todo o mundo me olhando como se eu fosse um animal em um zoolgico de luxo!  explodiu.
	Mas no  essa a ideia.  Inclinando-se para a frente, ele prosseguiu:  Ser uma representao da vida real. Usaremos as trs vitrines que do vista para a Michigan Avenue. Uma ser montada como uma cozinha e uma pe
quena sala de jantar, outra como uma sala e a terceira como um quarto.
Um quarto?
Charles riu.
	No precisa ficar chocada. O cenrio mostrar peas da prpria loja, e  a que est o segredo da propaganda. As pessoas sabero que ser possvel encontrar na loja tudo que estiver na vitrine, servindo de cenrio para ns dois.
	E... o que faremos exatamente? Com todas as pessoas parando para nos olhar?
	Bem, nada rigidamente pr-escrito. A ideia  que pareamos um casal passando um dia normal em uma casa montada completamente com produtos da Derring Brothers.
	Seremos um casal?  indagou Jennifer.
	Sim, representaremos um casal. A princpio, pensei que iramos usar modelos ou atores profissionais, mas meu pai achou que seria mais interessante que a tarefa fosse realizada por mim e por uma funcionria da loja.
	E se a imprensa criticar o fato de no sermos casados?
Afinal, no seremos modelos annimos representando papis. Isso pode causar problemas.
	No vejo por qu. Tudo far parte de uma brincadeira. Algo para chamar a ateno das pessoas que passarem diante da loja. Quanto ao jornais, no me importo com o que disserem a esse respeito.
	Mas pode ser que algum reprter faa perguntas pessoais sobre ns dois. Eu acharia embaraoso, voc no?
	Jennifer, a situao j est embaraosa. Virarmos modelos de vitrine ser um fato ridculo demais para merecer ser levado a srio. Mas se  isso o que meu pai quer, assim ser.  Sorrindo, acrescentou:  Talvez a experincia seja boa para voc. Precisa rir e deixar de ser to sria de vez em quando.
Jennifer no gostava muito da didtica de Charles, mas preferiu no dizer isso abertamente. Alm do mais, tinha assuntos importantes demais para se preocupar.
	No se trata apenas de ser embaraoso para mim  disse a ele.  O problema  que tambm causar problemas com a pessoa com quem estou saindo.
Charles encostou-se na cadeira, inclinando a cabea para o lado.
	H algumas semanas, vi voc sair da loja com um homem alto, usando culos.  ele?
	Sim. O nome dele  Peter Bartholomew. Ele  professor de ingls na Universidade de Illinois. Eu o conheci h alguns meses, quando ele veio  loja, comprar uma cafeteira para um amigo. Comeamos a conversar e estamos saindo juntos desde ento.
	E qual o problema?
	Bem, Peter no aprovaria a ideia de me ver na vitrine de uma loja. Ele no gosta nem que eu trabalhe...
Jennifer ia dizer "aqui", mas se conteve.
	Est querendo dizer que ele a menospreza por voc ser uma vendedora? -
	No! Bem, ele acha que eu deveria terminar a faculdade e...
	Seria bom para ele, no ? Isso no  problema seu, Jennifer.  problema desse seu namorado esnobe.
No o chame assim.
Ele balanou a cabea.
	Eu no a entendo. Discute comigo com segurana, mas se deixa dominar por esse sujeito. Por qu? Porque ele  um professor universitrio? No se acha suficientemente culta para ele? Deveria sentir-se livre para fazer o que gosta, e no ficar presa a ele.
	Ora, mas que conselho! Voc nem o conhece!
	No  preciso. J percebi que ele est colocando algemas em voc, e isso no me agrada.
	No preciso de sua aprovao nesse assunto  replicou ela.
	Pretende mesmo continuar saindo com um homem que a considera inferior a ele? Est apaixonada por ele?
A pergunta pegou Jennifer de surpresa. Queria muito estar apaixonada por Peter.
	Meus sentimentos pessoais no lhe dizem respeito  respondeu.
Charles afastou o prato para o lado.
Tem razo. Apenas fico indignado ao v-la comprometida com um homem que no a merece.
Jennifer se surpreendeu ao ouvir aquilo. No imaginava que Charles a considerasse tanto.
	Obrigada.
	Ento, no far a campanha da vitrine?  perguntou ele, parecendo desapontado.
Jennifer mordeu o lbio.
	Mesmo sem levar em conta a opinio de Peter, no me sinto adequada para o trabalho. Um exemplo disso  que no gosto de usar maquiagem e ouvi dizer que o sr. James foi contratado para trabalhar durante toda a semana.
	Sim  confirmou Charles.  E tambm contratamos uma cabeleireira para voc. As roupas esto sendo selecionadas de acordo com seu nmero. Sero vestidos sofisticados, camisolas exuberantes...
	Camisolas?
"Oh, meu Deus, onde estou me metendo?", pensou ela, aflita. Peter jamais aprovaria aquilo! Charles sorriu mais uma vez.
	Nada transparente, pode ficar tranquila. Alm disso, usar robes de cetim sobre elas.
	Para a vitrine montada como quarto?
	Isso mesmo.
E o que voc vai vestir?
Charles se tornou pensativo.
	Ainda no sei. No me preocupei em perguntar. Pijama e robe, provavelmente.
	Mesmo assim, acha que os jornais no tero um campo farto para fofocas?
	No ser nada escandaloso, como sermos encontrados em um motel, por exemplo. Todos sabero que se trata apenas de um evento publicitrio.
E quanto  minha reputao?  insistiu Jennifer.
Charles arqueou as sobrancelhas.
	Acha que sua reputao ficaria comprometida s por voc ser vista comigo na vitrine de uma loja, usando roupas de dormir? Uma mulher no fica desonrada por algo assim hoje em dia, Jennifer. O mximo que pode acontecer  metade da populao masculina de Chicago querer seu autgrafo na sada. Depois do Natal, poder dar adeus ao seu professor esnobe e escolher outro namorado, entre os inmeros pretendentes que aparecero.
Ao notar o semblante preocupado de Jennifer, a expresso de Charles se suavizou.
	Sei como est se sentindo  disse a ela.  Tambm estou hesitante. Voc est preocupada com o professor. Bem, pois eu ainda nem tive coragem de contar  minha namorada. Tenho certeza de que ela vai morrer de rir de mim. Claro que preferiramos ficar em paz com nossos parceiros, mas ambos somos funcionrios da Derring Brothers, Jennifer, e temos obrigaes a cumprir. Promete pensar no assunto? S posso lhe dar um prazo at amanh.
Ela hesitou.
	Est bem  disse, por fim.
	Espero sinceramente que aceite.
	Por qu?  perguntou ela.  H outras funcionrias da loja muito mais glamourosas do que eu, e prontas para aceitar o convite.
	Para ser sincero, voc  a nica pessoa com quem eu suportaria passar doze horas por dia dentro de uma vitrine, durante uma semana inteira.
	Por qu?
	Bem... Para comear, voc  inteligente e no fala besteiras.
Jennifer se surpreendeu. Comparada com as mulheres com quem Charles costumava sair, ela sempre se considerara uma idiota.
	Alm disso  prosseguiu ele , voc no  do tipo que ficaria tentando me seduzir. Afinal, sempre me tratou como uma pessoa normal, e no como "o presidente da Derring Brothers". Gosto da maneira como  sincera quando discutimos.  muito parecida com minha irm, que saiu de Chicago h algum tempo. Eu ficaria agradecido se me fizesse esse favor, Jennifer. No me obrigue a dividir aquela vitrine com alguma caadora de fortunas desesperada  exagerou ele.
Ela deu um breve sorriso ao responder:
	Falarei com Peter essa noite.
	Ok. Mas certifique-se de tomar uma deciso por voc, e no por ele.
	Pode deixar.
Jennifer teve a impresso de que seria mais difcil afirmar aquilo do que fazer.
Enquanto esperava do lado de fora da loja, depois das seis horas, Jennifer ficou pensando na conversa que tivera com Charles.
A preocupao em dar a notcia a Peter no sara de sua mente durante toda a tarde. Talvez Charles estivesse certo. Ela estava se deixando dominar por Peter.
Quando se conheceram, ela ficara impressionada com a educao e a intelectualidade dele. Peter parecia ser tudo que ela esperava de um futuro marido. Ela nunca imaginara que seria capaz de despertar a atrao de um homem to culto. Porm, s vezes sentia-se pouco  vontade na companhia dele, e aquilo no a agradava.
No momento em que jogou a ponta do cachecol para trs, viu Charles passar pela porta giratria da loja. Ele seguiu em frente com passos firmes, sem sequer not-la, e aproximou-se da limusine preta que parara diante do prdio, minutos antes.
Quando a porta foi aberta pelo motorista, uma loira deslumbrante saiu do carro, vestida com um pesado casaco de pele. Beijou Charles nos lbios e puxou-o para dentro do carro, demonstrando ansiedade para ficar a ss com ele.
"Mais uma para a coleo", pensou Jennifer. Peter chegou pouco depois que a limusine partiu.
Ao se aproximar, ele a beijou no rosto, o que no surpreendeu Jennifer. Peter no gostava de demonstrar gestos de carinho em pblico.
	Como est?  perguntou ele.  Voc me deixou preocupado com aquele telefonema. O que aconteceu?
Jennifer contou toda a histria enquanto se dirigiam a um restaurante ali perto. Mais tarde, durante a refeio, ela terminou de descrever seu dilema.
	Eu me considero uma funcionria fiel  declarou. Por um lado, quero fazer o trabalho. Mas, por outro, vou me sentir completamente embaraada naquela vitrine.
	Claro que sim  anuiu Peter.  A situao seria muito degradante.
	Degradante?
	 uma mulher inteligente, Jennifer. Tem um impecvel senso de decoro e de dignidade que foi justamente o que me atraiu em voc. Merece algo mais refinado. Derring no deve respeit-la muito para querer que voc se exiba dessa maneira.
	Ele disse que me escolheram porque pareo inteligente. Voc  inteligente. Ao menos notaram isso! Sendo assim, por que no encontram uma maneira melhor de utilizar sua inteligncia, em vez de confin-la em uma vitrine, vestida em uma camisola para se submeter a uma situao ridcula?
Jennifer no soube o que responder. Peter segurou a mo dela sobre a mesa.
	Esse  apenas outro exemplo, ainda que extremo, do que venho tentando lhe mostrar nos ltimos meses. Voc no tem futuro naquela loja de departamentos, Jennifer. Volte para a faculdade e tire seu diploma.
	Diploma de qu? Enquanto estive na faculdade, mudei de curso trs vezes em dois anos. Nunca tive certeza da carreira que queria seguir. Por isso foi que desisti e resolvi trabalhar. Senti que precisava de um emprego para saber o que gostaria de fazer da minha vida. Sou feliz na minha profisso, Peter.
Ele balanou a cabea, inconformado.
	No  possvel. Voc tem potencial demais para desperdiar vendendo torradeiras.
	Peter  disse ela, reunindo coragem.  Acho que sou eu quem deve decidir se estou feliz ou no no meu emprego.
	Mas Jennifer, no creio que se conhea bem o suficiente para decidir isso. No teve chance de explorar suas capacidades intelectuais e poderia fazer isso voltando para a faculdade.
Para que voc se sinta melhor a meu lado, no ?
Peter ajustou os culos.
	Puxa, voc est agressiva esta noite. Estou acostumado a lidar com estudantes e...
	No sou uma de suas alunas!
	No , mas poderia ser se voltasse a estudar.
Jennifer no conseguiu deixar de rir, embora estivesse triste.
	Se eu fosse sua aluna, no poderamos mais sair juntos.
	Eu estaria disposto a esperar que voc se formasse  afirmou Peter, acariciando a mo dela.
	Voc j est disposto a esperar por muita coisa  resmungou ela.
	O que est querendo dizer? Desde nosso primeiro encontro, deixei claro que no acredito em relacionamentos que vo logo apelando para maiores intimidades. Voc pareceu concordar comigo ao dizer que estava cansada de homens que s pensavam em sexo.
	Sim, concordei. No havia necessidade de irmos direto para a cama, mas...
	Mas o qu?
Jennifer apertou os lbios. Por que tinha sempre de dizer tudo a Peter, se ele era to inteligente? No seria preciso que ele a levasse para a cama para ela se sentir satisfeita. Mas se pelo menos a beijasse com mais ardor de vez em quando...
Peter parecia pensar em cada palavra e em cada gesto, antes de tomar qualquer atitude. Depois de algum tempo de convivncia, aquilo estava comeando a se tornar cansativo.
Jennifer afastou a mo da dele, sentindo-se incomodada com o contato.
	Primeiro vamos terminar o assunto sobre a vitrine viva  sugeriu.
	Na minha opinio, o assunto j est mais do que encerrado  disse Peter.  No quero que voc participe dessa palhaada e pronto.
	Por qu?  indagou Jennifer.  Porque voc se sentiria embaraado? Os colegas da universidade iriam rir de voc?
	No  nada disso  refutou ele, ajeitando os culos novamente.
S ento Jennifer comeou a perceber que aquele era um tique nervoso de Peter. Estranho que no houvesse notado antes.
	E se eu quiser participar da campanha publicitria?  perguntou, com ar de desafio.
	Est tentando me provocar?
	Por que acha isso? Afinal, sou eu quem vai estar na vitrine  argumentou ela.
	Quero apenas evitar que voc passe por uma situao ridcula  Peter se justificou.
	Pois eu acho que seu desejo  apenas livrar voc mesmo do que considera como uma "situao ridcula". No tomarei essa deciso baseando-me na sua opinio, Peter. Est querendo me impor suas ideias rgidas, e no vou aceitar isso!
Jennifer mal acreditou que houvesse tido coragem de dizer aquilo com um tom de voz to firme. Mas no estava arrependida.
Peter a fitou em silncio por um momento, como que sem saber o que havia dado nela.
	Lamento se pensa isso de mim  disse, por fim. Estou tentando apenas ajudar.
	Pois no tem me ajudado nem um pouco  continuou Jennifer, com o mesmo ar decidido  No me importa o que voc pensa a esse respeito, portanto, a deciso ser exclusivamente minha! Vou para casa agora. Preciso ficar sozinha para pensar sobre o assunto.
Peter ficou de p, ainda chocado.
Eu a levarei at l.
 No precisa se incomodar. Prefiro ir de txi.
Jennifer...
Ela deixou a mesa e saiu sem olhar para trs. Quando entrou em seu apartamento, em Elmhurst, chorou por alguns minutos, mas logo se acalmou. Na verdade, estava sentindo-se mais aliviada do que triste. S que ainda no sabia se iria aceitar a proposta de Charles.
s nove e meia da noite, continuava pensando no assunto quando Peter telefonou.
Sinto muito se tentei lhe impor meu ponto de vista, Jennifer. Eu no deveria t-la tratado como uma estudante. Parecia confusa e eu quis apenas ajudar.
	Tudo bem, eu sei.
	Voc me perdoa?
	Claro, Peter.
	E... j tomou a deciso?
Algo fez Jennifer proferir a resposta antes mesmo que ela se desse conta do que estava dizendo.
	Sim. Decidi aceitar.
	Oh.
	E espero que aceite minha deciso.
	Eu... Bem, sim. Claro.
	Ir me ver enquanto eu estiver na vitrine?
	Eu no perderia isso por nada.
Jennifer percebeu a ironia, mas no revidou. De fato, no se importava com a opinio de Peter. Sentia-se como um pssaro que acabara de se libertar da gaiola, e a sensao era boa demais para ser desperdiada com discusses.

CAPITULO III

Ainda faltava uma semana para o Natal, o relgio marcava oito horas da manh, e era cedo demais para Jennifer estar na Derring Brothers. Porm, l estava ela, acomodada em uma das salas do departamento executivo, localizado no ltimo andar do prdio.
O acesso at o local era feito por um elevador especial, e ela no conseguira deixar de sentir certo prestgio enquanto se encaminhava para a sesso de maquiagem.
Tentou relaxar enquanto o sr. James se concentrava em aplicar um verdadeiro arsenal de cosmticos em seu rosto.
 Maravilhoso  elogiou ele, afastando-se um pouco para verificar o resultado de seu trabalho.  Adoro maquiar olhos verdes. E os seus mais parecem duas raras esmeraldas.
O sr. James era um homem elegante, de estatura mediana, que andava sempre vestido com um blazer informal.
Christine, a cabeleireira, comeou a trabalhar logo em seguida. Tratava-se de uma simptica morena na casa dos trinta anos de idade, com cabelos cacheados e olhos brilhantes.
Jennifer sentia-se presente de corpo, mas no em esprito. Tanto o sr. James quanto Christine referiam-se a ela como um objeto que precisaria ser modelado, transformando-a em uma mulher irresistvel.
Estava quase pronta quando a porta se abriu de repente, anunciando a chegada de algum. Jennifer no pde ver quem era, mas rezou para que no fosse Charles. Apesar de haver aceitado a proposta, deixara claro para ele que continuava aborrecida com a ideia.
 o sr. Derring  anunciou o sr. James, olhando para ela.
Jennifer conteve o flego. No queria que Charles a visse antes de ela ficar completamente pronta.
 muito bom rev-lo  continuou o maquiador, olhando para o outro lado.  Como est a Nova Zelndia?
"Nova Zelndia?", pensou ela, confusa.
Linda, como sempre. Para ser sincero, detestei ter de voltar para casa.
A voz era de uma pessoa mais velha. Jennifer conseguiu se virar um pouco na cadeira e viu que era Jasper Derring, e no Charles. V-lo ali quela hora foi uma surpresa, mas concluiu que o sr. Derring deveria haver chegado para a entrevista coletiva que dariam s nove horas da manh, antes da abertura oficial da vitrine.
Espero poder passar minhas frias por l algum dia  disse o sr. James, dando os ltimos retoques na maquiagem.  Ouvi dizer que as paisagens so espetaculares.
Jasper se aproximou para v-la melhor e deu-lhe uma piscadela animadora.
To espetaculares quanto a beleza de Jennifer  respondeu ele.
O sr. James sorriu.
Ela no est belssima?  elogiou-a, orgulhoso de seu trabalho.  Jennifer tem olhos lindos. Sua escolha foi excelente, sr. Derring.
Jennifer sentiu-se embaraada com tantos elogios, mas tambm ficou confusa. Charles havia dito que ela fora escolhida pela equipe de marketing, no entanto, o sr. James acabara de indicar que o sr. Derring a havia escolhido.
	Parece estar nervosa  Jasper se dirigiu a ela.
	Um pouco  admitiu Jennifer.  No sei se ser agradvel ficar sendo observada o dia inteiro.
	Com toda sua beleza, deveria estar acostumada a receber olhares alheios, minha querida  gracejou ele.  Mas aposto que nunca os notou. Voc  do tipo de mulher dedicada a tudo que faz, principalmente ao trabalho. Quando eu era presidente da loja, gostaria que todos meus fu cionrios fossem como voc.
Jennifer ficou estupefata ao ouvir aquilo do dono da Derring Brothers. Nunca imaginara ser to bem conceituado por ele.
	O-obrigada  balbuciou.
	No deixe Charles intimid-la enquanto estiverem na vitrine, durante essa semana. Sua perspiccia  to boa quanto a dele. De fato, acho que  at melhor. Meu filho est sempre tendo ideias inovadoras, e  a pessoa certa para modernizar o visual da loja. S que ele tambm encara a vida como um grande parque de diverses, onde o melhor  estar sempre procurando uma nova montanha-russa. Chegou a hora de ele observar seu exemplo e criar um pouco de razes.
Jennifer o ouviu em silncio, sem entender ao certo aonde ele estava querendo chegar. Por um momento, chegou a pensar que o sr. Derring a estivesse olhando como um "solo frtil", onde o filho poderia fixar as tais "razes".
No, no era possvel que ele estivesse pensando aquilo, disse a si mesma. Desejou poder voltar para seu balco, no setor de eletrodomsticos, e esquecer toda aquela histria.
Chegou at a cogitar a ideia de haver seguido o conselho de Peter. No que ele estivesse certo, mas porque quem a escolhera para aquela promoo simplesmente cometera um erro!
	Ah, meu Deus, acho que a assustei  disse Jasper, notando a expresso preocupada de Jennifer.  No foi essa minha inteno. Eu queria apenas lhe dizer para no ficar com medo de Charles s porque ele  o presidente da loja. Coloque-o no devido lugar, se for preciso. Ser bom para ele. Sempre tentei dar a ele uma noo de responsabilidade e de orgulho pessoal, mas parece que no adiantou Talvez voc tenha mais sucesso do que eu  acrescento ele, com um sorriso.
Duvido  ironizou ela.
Jasper riu alto.
	Preciso descer agora  avisou-a.  O pessoal da imprensa j deve ter chegado.
	Eles tambm me faro perguntas?  indagou Jennifer, nervosa.
	E provvel.
	E o que devo responder?
O que vier  sua mente. Confio no seu bom senso.
Dizendo isso, saiu da sala, avisando que a veria depois.
O sr. Derring podia at confiar em seu bom senso, mas ela prpria estava longe de acreditar nele.
Charles limpou a garganta e aproximou-se do microfone. Cinquenta cadeiras haviam sido enfileiradas na sala, e a maioria delas j se encontrava ocupada. Os jornalistas mantinham blocos de anotao  mo e os fotgrafos e cinegra-fistas tambm j haviam se posicionado na parte posterior do aposento.
Jasper Derring se encontrava a um canto da sala, observando tudo atentamente. S faltava Jennifer chegar para que a entrevista se iniciasse. Um dos funcionrios da loja informou Charles de que ela estava vestindo o traje que usaria naquele primeiro dia.
"Esse ser um grande dia para a Derring Brothers", pensou ele, entusiasmado ao notar o interesse dos jornalistas pela "novidade publicitria". Estava feliz por seu pai tambm estar ali, para apreciar o sucesso de sua ideia.
Ao notar que todos j estavam ficando meio impacientes, achou melhor comear a conversar enquanto Jennifer no chegava.
Bom dia  disse, ao microfone.
No mesmo instante, os flashes comearam a piscar.
Creio que j podemos iniciar nossa conversa. Jennifer Westgate, a funcionria que concordou em compartilhar essa loucura comigo j est a caminho. Todos aqui devem ter visto nossas propagandas e sabem que a partir de hoje, e durante toda a semana anterior ao Natal, teremos o que eu batizei de "vitrine viva" aqui na Michigan Avenue. Trata-se de nossas trs vitrines principais, que foram decoradas com ambientes tpicos de uma casa, s que exclusivamente com artigos da Derring Brothers!
Os jornalistas mantiveram as mesmas expresses nos rostos. Sem perder o entusiasmo, Charles prosseguiu:
	Da mesma maneira, eu e a srta. Westgate, que ficaremos na vitrine todos os dias, das dez s dez, usaremos roupas exclusivas de nossa loja.
Ele olhou para a porta, ao notar que ela havia sido ligeiramente aberta. O sr. James apareceu logo atrs dos fotgrafos e lhe fez um sinal de positivo.	
Creio que a srta. Westgate j...	
Charles se interrompeu, estupefato. De repente, os flashes das mquinas comearam a iluminar uma verdadeira deusa que cruzou a sala com impecvel elegncia.
Seria mesmo Jennifer?, ele se perguntou. Por Deus, era ela! S que estava to linda, que quase parecia irreal.       
Conteve o flego, sentindo-se aborrecido e maravilhado ao mesmo tempo. Como aguentaria passar uma semana inteira dentro de uma vitrine com essa nova Jennifer, sem se deixar enfeitiar por toda aquela beleza?
Ela trajava um lindo vestido branco, com as mangas e uma parte da saia esvoaantes. O modelo a deixara com uma aparncia de anjo, mas nem se comparava ao trabalho artstico que o sr. James e Christine haviam feito no rosto e nos cabelos de Jennifer. Sua beleza natural fora iluminada com glamour, fazendo-a parecer uma estrela de Hollywood.
Os cabelos cados sobre seus ombros ondulavam de forma provocante enquanto ela andava, e a maquiagem realara justamente sua caracterstica mais fatal: os olhos verdes que mais pareciam duas esmeraldas.
Quando Jennifer se aproximou, olhou dele para a plateia j e novamente para ele, parecendo perplexa com tudo aquilo. 
S ento Charles se lembrou de que estava em meio a uma entrevista coletiva e que precisava dizer algo.
 Hum... Esta  Jenn... A srta. Westgate. Jennifer Westgate. Ela trabalha na seo de eletrodomsticos, mas, durante essa semana, ficar comigo na vitrine.
Os jornalistas estavam rindo. Alguns discretamente, outros no. S que Charles no entendeu o motivo. Como se no bastasse, tambm esqueceu o que pretendia dizer em seguida. Pensando rpido, sugeriu:
	Por que no comeamos pelas perguntas?
Uma jornalista loira levantou a mo.
	O que vocs ficaro fazendo na vitrine?
Seguiu-se uma srie de risadas pela sala.
	 uma boa pergunta  respondeu Charles, com seriedade, ignorando os risos.  Nossa equipe organizou uma espcie de script para seguirmos. Na cozinha, por exemplo, ns prepararemos pratos simples, mas diferentes a cada dia. Ressaltando, mais uma vez, que os eletrodomsticos sero todos da loja. Creio que esse foi outro dos motivos pelos quais a srta. Westgate foi escolhida. Ela est familiarizada com tudo aquilo.
	Foi o senhor mesmo quem a escolheu?  perguntou um reprter.
	No. Deixei isso por conta de uma equipe de marketing. Eles selecionaram, entre nossas funcionrias, qual seria a mais qualificada para a tarefa.
E quem o escolheu?
Charles sorriu.
J que a ideia promocional foi minha, meu pai, que se encontra aqui presente...  Indicou Jasper, ainda de p, a um canto da sala.  Bem, ele sugeriu que era eu quem deveria ficar na vitrine. Seria uma boa oportunidade para eu me apresentar  sociedade, como novo presidente da loja.
Ao terminar a explicao, Charles percebeu que os jornalistas no pareciam muito interessados na imagem da Derring Brothers. Pelo visto, tinham algo mais em mente.
Uma mulher  esquerda levantou a mo.
	 casado, sr. Derring?
	No.
	E Jennifer?  casada?  indagou a mesma pessoa.
Todos olharam para Jennifer, que balanou a cabea negativamente. Um reprter sentado mais  frente ficou de p e perguntou:
	Existe um romance entre vocs?
	No, claro que no  respondeu Charles, sem hesitar.
Jennifer sentou-se ao lado dele, tentando manter-se calma.
	Vamos ouvir da prpria Jennifer  disse algum ao fundo.
Ela umedeceu os lbios.
	Estou saindo com uma pessoa e creio que o sr. Derring tambm tem uma namorada. Portanto, no existe nada entre ns.
Charles respirou aliviado. Ainda bem que Jennifer soubera lidar com a questo. Por que os jornalistas estavam pensando que havia algo entre eles?
Seguiu-se um momento de silncio, antes que outra mulher levantasse a mo. Charles apontou para ela.
O senhor pareceu surpreso, ou mesmo abalado, quando Jennifer entrou na sala  salientou ela.  O que se passou por sua mente quando a viu?
Charles ficou aborrecido. Primeiro porque no sabia o que responder, e segundo porque no entendia o motivo de os reprteres insistirem em fazer perguntas pessoais.
	Fiquei apenas admirado pela beleza da srta. Westgate  respondeu.  Isso  apenas uma prova do que as roupas e os cosmticos da Derring Brothers so capazes de fazer a uma mulher. Jennifer sempre foi bonita, mas foi transformada em uma beldade com nossos produtos. Estou impressionado. Vocs no?
Os reprteres olhavam de um para o outro, como que procurando algo mais do que estavam enxergando. Ficou evidente que buscavam algum indcio de romance entre ele e Jennifer. Apesar da irritao, Charles continuou demonstrando calma, pelo bem da campanha publicitria e da loja.
Decidindo aproveitar a situao para uma fazer uma brincadeira, falou:
	Depois de passar uma semana com ela na vitrine,  bem capaz que eu acabe distribuindo convites de casamento a todos da Derring Brothers!
Com o aumento do burburinho e dos flashes, ele olhou para Jennifer. Por baixo da sofisticada maquiagem, ela lhe lanou um daqueles olhares tpicos de censura.
Em meio quela atmosfera de luzes, publicidade e caos momentneo, Charles no se importou muito com o que acabara de dizer. De fato, estava mesmo mais do que impressionado com a beleza de Jennifer.
A manh estava quase acabando quando Jennifer pde finalmente parar um pouco a exibio na vitrine para ir ao toalete.
Ao se olhar no espelho com mais calma, notou realmente o que o sr. James e Christine haviam feito com sua aparncia. Ela estava mesmo estonteante.
No era de admirar que Charles houvesse ficado embasbacado na frente de todos, quando ela aparecera para a coletiva. Talvez esse tambm fosse o motivo que o fizera se comportar como se j soubesse com exatido o que dizer a ela quando entraram na vitrine.
Ainda admirando-se no espelho, imaginou o que Peter diria quando a visse daquele jeito. Ele prometera passar por l depois do trabalho, no final da tarde.
Quando retornou para a vitrine, viu que Charles j havia voltado. Tambm notou que o nmero de pessoas do lado de fora aumentara com a proximidade do horrio de almoo.
	Est pronta para prepararmos nossa refeio?  perguntou ele, ao v-la.
	Oh, mal posso esperar!  exclamou Jennifer, fingindo entusiasmo.  E voc?
Ela sorriu para ele, mas Charles no respondeu, voltando a assumir a expresso preocupada que demonstrara durante toda a manh.
	Charles, qual o problema? Todas as vezes em que nos fitamos nos olhos voc parece se aborrecer por algum motivo. Pensei que eu ficaria nervosa com isso, mas, pelo visto,  voc quem est.
Ele assentiu.
	A entrevista coletiva no ocorreu como eu esperava e... Oua, sei que no vamos sair distribuindo convites de casamento ao final desta semana, portanto, no se preocupe. Entendi que seu comentrio foi apenas uma piada, para dar aos jornalistas o que eles estavam querendo ouvir.
	Ok, mas no  esse o problema.
	Ento, qual ?
	No sei  respondeu ele, levantando as mos.  Isso est diferente do que imaginei.
O olhar curioso das pessoas o est incomodando? perguntou Jennifer, observando os transeuntes.
Um deles lhe acenou, e ela retribuiu o cumprimento. Charles olhou na mesma direo e tambm acenou.
	No est sendo to desagradvel quanto pensei disse a ela.  Acho que estou me acostumando.
	Foi o que pensei.
Charles voltou a fit-la ao dizer:	
	Quando fala se parece mesmo com voc, mas, ao mesmo tempo,  como se no fosse. Eu... ainda no me acostumei com sua mudana.
	No foi ideia" minha contratar um maquiador e uma cabeleireira  replicou Jennifer.  Avisei a todos que no gostava de usar maquiagem, mas algum me ouviu? No! E agora voc vem reclamar...
	Ok, Ok.  Charles levantou a mo, interrompendo-a.  No  culpa sua que tenha ficado to linda. E s que est sendo difcil unir sua antiga personalidade com essa nova aparncia. No sei dizer o motivo, mas isso me aborrece de alguma maneira.
	Aborrece? Por qu?
	Como diabos posso saber? Eu no esperava essa mudana drstica. Sei que no faz sentido.
Jennifer suspirou.
	Pelo menos isso  normal. Sempre achei que suas ideias no fazem muito sentido mesmo.
Charles riu, relaxando.
	Fico feliz em ver que por baixo de tudo isso a antiga Jennifer continua existindo. D-me algum tempo, Ok? Prometo que logo me acostumarei com sua nova aparncia. Vamos preparar o almoo?
	Sim, claro.
No fim da tarde, porm, quando mudaram os trajes para parte da noite, Charles voltou a sentir-se irritado. Estava trajando um smoking, e Jennifer vestira um lindo vestido azul-turquesa de gola alta e mangas compridas.
Charles se viu boquiaberto mais uma vez. Nunca percebera que Jennifer tinha tantas curvas, e todas nos lugares to certos. O que estava lhe acontecendo afinal? J vira muitas mulheres sexies antes e nunca se afetara com isso. Na verdade, no parecia certo que Jennifer fosse to sexy.
Quando ela sentou-se no sof, provando uma torrada com caviar, a abertura lateral do vestido revelou as pernas mais lindas que ele j vira.
Charles ficou ainda mais aborrecido ao perceber o olhar de cobia dos homens do lado de fora da vitrine. Teve vontade de dizer a ela que fosse vestir outro traje menos provocante, como os que ela costumava usar no dia-a-dia. Porm, lembrou-se de que fora ele prprio quem providenciara para que Jennifer aparecesse daquela maneira na vitrine.
	Aceita um pouco de caviar?  ofereceu ela.
	No, obrigado  respondeu ele, com frieza.
Jennifer franziu o cenho.
	Deveramos estar nos divertindo com isso, lembra?
Ou pelo menos agindo como se estivssemos.
"Voc parece estar se divertindo muito!", Charles teve vontade de dizer. Jennifer tinha razo. Por que ele tivera aquela ideia ridcula?, perguntou-se, desejando que a semana j estivesse terminando.
Ao olhar casualmente para o lado de fora da vitrine, viu uma loira sorrir e soprar um beijo em sua direo.
	Delphine!  exclamou ele.  Obrigado por ter vindo!  gritou, esperando que ela pudesse ouvi-lo atravs do vidro.
Ela sorriu, demonstrando que entendera as palavras dele.
	Delphine?  repetiu Jennifer.
	Minha... namorada  explicou Charles.  Ela  modelo, e havia prometido passar por aqui hoje.
	Podemos nos comunicar com os transeuntes dessa maneira?  indagou Jennifer, com ironia.
	Estou apenas cumprimentando-a. Ok. Quer mais caviar?
	No, obrigado.
	Tem certeza?  s o que teremos para comer at nossa sada, s dez horas.
	Hum?  perguntou Charles, mais interessado em prestar ateno ao que Delphine estava tentando dizer.
	Ela disse que voc est incrvel com o smoking  afirmou Jennifer.  Ela mexe a boca com tanto exagero que  impossvel no entender o que est sendo dito.
	No entendi porque voc me interrompeu  retrucou Charles.
Servindo-se de uma dose de champanhe, levantou a taa na direo da loira, num brinde silencioso. Porm, quase derrubou o copo quando Jennifer se levantou de repente e acenou para algum na multido.
Peter! Sou eu!
Charles reconheceu o homem de culos. Era o tal Peter, com quem Jennifer estava saindo. Ao reconhec-la, ele arregalou os olhos, parecendo completamente chocado. Charles at sentiu-se solidrio, embora no simpatizasse muito com o sujeito.
Enquanto servia uma taa de champanhe para Jennifer, Charles se distraiu por um momento. Mas, qual no foi sua surpresa quando voltou a olhar para fora e viu Delphine e Peter se cumprimentando.
	Por que Peter est falando com ela?  perguntou Jennifer, colocando o copo sobre a mesa.
	Devem ter ficado solidrios enquanto tentavam se comunicar conosco  sugeriu Charles.  Mas acho que vi Peter se dirigir a ela primeiro. S que Delphine  muito comunicativa e deve ter respondido de imediato.
	Bem, uma coisa  certa: aqueles dois no tm nada em comum  falou Jennifer.
	E verdade  concordou Charles, rindo.  Exceto o fato de estarem visitando os namorados em uma vitrine.
Por um momento, os dois ficaram observando Peter e Delphine conversarem.
	O que ser que esto dizendo um ao outro?  questionou Charles.
	No tenho a mnima ideia  respondeu Jennifer.  Acho que Peter ficou to hipnotizado pela boca dela que nem a est ouvindo. Ela sempre fala desse jeito provocante?
Charles puxou um pouco a gravata. O colarinho parecera ficar apertado de repente.
	Sim, essa  a maneira como ela costuma falar  respondeu, tentando disfarar a irritao.
Aquele fora justamente o detalhe que chamara sua ateno em Delphine, quando a conhecera em uma festa. Quem poderia imaginar que um bloco de gelo, como parecia ser o tal Peter, reagiria da mesma maneira? Professores altamente cultos tambm deviam ter hormnios, pensou, com ironia.
	Agora esto rindo!  indignou-se Jennifer.  Acho que at se esqueceram de ns.
	No  refutou Charles, negando-se a acreditar que Delphine estivesse dando mais ateno a um professor sem graa do que a ele.  Esto apenas sendo... educados.
Ela est flertando com ele!
Charles estreitou os olhos.
	Delphine flerta com todo mundo. E o jeito dela. O problema  que seu professorzinho est correspondendo.
	No pode ser. Peter detesta mulheres vulgares.
	O que quer dizer com vulgar?  objetou ele.  Acha que eu sairia com uma mulher assim? Delphine pertence a uma famlia tradicional.
Jennifer deu de ombros.
	Qual  mesmo a piada de Dolly Parton a respeito de si mesma? "E preciso muito dinheiro para uma mulher parecer to vulgar quanto ela." Esse poderia muito bem ser o lema de Delphine.
	Como pode saber?  indagou Charles.  Estilo nunca foi seu ponto forte.
Ele olhou para Jennifer e s ento percebeu que tal comentrio no se aplicava mais a ela.
	Nunca tive ambio de estar na moda  Jennifer se justificou.  E por que estamos falando de mim? No deveramos estar mais preocupados com "Sanso e Dalila", l fora?
Os dois voltaram a prestar ateno ao lado de fora da vitrine. Talvez notando que estavam sendo observados, Delphine e Peter olharam para eles e pareceram ficar embaraados de repente.
Delphine soprou um beijo para Charles e disse: "Nos veremos mais tarde". Partiu em seguida, no sem antes trocar um aperto de mos e um olhar significativo com Peter.
Ele tambm saiu logo, depois de dizer a Jennifer que a apanharia s dez horas.
	Isso foi interessante  ironizou Jennifer.
	No se preocupe com o que viu. Eu no estou preocupado  mentiu Charles.  Alm disso, se  de glamour que Peter gosta, use o que tem agora  sugeriu ele, arrependendo-se em seguida.
	E justamente isso que acho estranho. Peter nunca gostou de me ver maquiada, mas pareceu hipnotizado pela aparncia de Delphine e pelo casaco de pele que ela estava usando. Justo ele, que  partidrio da ecologia!
	Est com cime?
	No sei. Mas no gosto do que estou sentindo.
	Quando Peter a vir, mais tarde, ficar to impressionado com voc quanto ficou com Delphine.
Charles tentou tranquiliz-la, mas ele prprio no estava tranquilo. No sabia o que o incomodava mais: o fato de Delphine haver flertado com o professor ou de Jennifer sentir-se atrada pelo sujeito. Precisava pensar na possibilidade de usar culos de aro dourado. Pelo visto, isso excitava as mulheres. 
Quando Jennifer trocou de roupa, tirou a maquiagem e saiu da loja, Peter a estava esperando do lado de fora. Caa uma neve fina e os dois seguiram a p pela calada.
	O que achou?  perguntou ela, enfiando o brao no dele.
	De qu?
	De me ver na vitrine.
	Oh. Fiquei surpreso. Voc ficou diferente com os cabelos penteados daquela maneira e a maquiagem. Mas pareceu se adaptar rpido  mudana.
	Obrigada  agradeceu Jennifer, desapontada com o comentrio.
	No que no seja bonita. Mas  que me acostumei a v-la sem todos aqueles recursos.
	Pareceu gostar de v-los em Delphine  provocou ela.
	E que combina com ela  disse Peter.  Delphine  dessas mulheres que tm uma aura de glamour muito explcita.
	E voc pareceu muito atrado por essa aura.
	Sou um homem normal, Jennifer, e sei admirar a beleza de uma mulher.
	S no a minha.
	Vejo voc mais como uma pessoa dedicada e muito inteligente.
	Ainda est aborrecido por eu haver aceitado o trabalho na vitrine?
Peter pareceu pensar na pergunta por um instante.
	No. Fico feliz que esteja gostando.
	No sentiu-se embaraado? Pela manh, durante a entrevista coletiva, fui fotografada por funcionrios de vrios jornais.
	Tambm apareceu no noticirio das seis horas  salientou ele.
	E mesmo?
	Sim. Mostraram uma parte da entrevista coletiva.
Charles Derring disse algo sobre distribuir convites de casamento ao final desta semana.
	Oh, aquilo foi s para causar impresso nos jornalistas.
Percebi isso. Afinal, por que ele se casaria com voc?
Jennifer se virou para olh-lo, ofendida com o comentrio indelicado.
Sou to pouco atraente assim?
	Pelo contrrio. Mas Charles Derring  muito exibicionista. Por isso  que namora Delphine. Para ele, ela no passa de um trofeu. Lamento por ela.
Jennifer respirou fundo, perguntando-se por que estavam falando de Delphine.
	Por que acha que Charles no se interessaria por mim?
	Porque voc  inteligente. Um homem que procura apenas divertimento no a escolheria.
	E quanto a voc, Peter? Ainda est interessado em mim?
Ele parou um momento. Sorrindo, passou o brao pela cintura de Jennifer e respondeu:
Claro que sim. Agora vamos jantar em algum restaurante.
E foi estritamente isso que fizeram. Quando Peter e deixou em casa, beijou-a de leve e partiu, limpando o batom dos lbios com um leno. Jennifer esquecera-se de quanto ele detestava batom.

CAPITULO IV

No dia seguinte, quando Charles e Jennifer estavam preparando o almoo, na cozinha da vitrine, ele resolveu perguntar algo que o estava intrigando.
O que Peter lhe disse ontem?
Jennifer parou de picar a cebola e olhou-o, surpresa.
	Sobre o qu?
	Sobre seu trabalho. Ele ficou aborrecido ou disse-lhe algo indelicado?
Ela riu, enxugando os olhos com a manga da blusa.
	No. Peter foi comportado at demais, como sempre. Por que acha que ele me disse algo indelicado?
	Ora, pelo modo como est chorando...
Jennifer suspirou.
	E por causa da cebola.
	Oh, eu no havia percebido. Ainda bem que no houve nenhum problema. Ontem voc pareceu preocupada com a forma como ele reagiria ao seu novo visual.
Jennifer deu de ombros.
	Ele pareceu aceitar, embora tenha achado que no combina comigo.  Ela voltou a picar a cebola, s que com mais energia.  Peter tem uma maneira muito prpria de enxergar as coisas.  Quando terminou de cortar a cebola, aproximou-se de Charles e perguntou:  Estraguei a maquiagem dos olhos? O sr. James a fez com tanto esmero que seria desagradvel arruinar o trabalho dele.
Charles observou os lindos olhos verdes, levemente avermelhados pelo efeito da cebola.
	Parece perfeita para mim  disse a ela.  Mas  provvel que o sr. James faa um pequeno retoque no prximo intervalo.
	Diga  sua equipe para no colocar cebolas para fritarmos aqui.
	Ok, eu direi.  Aps um breve intervalo, ele perguntou:  Peter falou algo sobre Delphine?
	Sim. Ele tinha muito a dizer a respeito dela.
	O qu, por exemplo?
	Disse que ele  um homem normal e que sabe admirar a beleza de uma mulher.
Charles se sobressaltou.
	Ento ele admitiu! Est interessado nela!
	Acho que sim, embora Peter no tenha dito isso com todas as palavras.
	E o que mais ele disse?  Diante da hesitao de Jennifer, insistiu:  Fale, Jennifer. Precisamos saber com quem estamos lidando.
	Bem, ele disse que voc  um exibicionista e que Delphine no passa de um trofeu para voc. Tambm falou que lamenta por ela.
	Lamenta por ela? Seu professorzinho no tem mesmo nem um mnimo de percepo.  Delphine quem me exibe como um trofeu!
	timo. Fico feliz que perceba isso.
	Hum?
Eu disse que fico feliz que voc perceba isso.
De sbito, Charles se tornou argumentativo.
	Voc tambm acha que sou um trofeu para Delphine? Como chegou a essa concluso?
	 muito bvio. Eu no diria dessa maneira, mas quando voc mencionou o fato soou perfeito para mim. Delphine parece ser do tipo que gosta de mostrar tudo que possui, e agora que est namorando o jovem presidente de uma famosa loja de departamentos, no iria ser diferente. Provavelmente, voc se encontra na mesma categoria de valor que aquele casaco de chinchila que ela adora exibir.
	Ei, tambm no  assim!  Charles se ofendeu.
No entanto, uma voz interna lhe dizia que Jennifer tinha razo.
	Ok, talvez eu esteja errada. Afinal, eu nem a conheo. Mas voc perguntou, e eu fui sincera.  Olhando o que ele comeara a fazer, disse:  Charles, voc est batendo esses ovos com tanta fria que no vai sobrar nada na tigela para fazermos a omelete!
Ele deu de ombros.
	De qualquer maneira, quem est com fome?
	Voc ficou aborrecido  afirmou ela.  Qual foi o motivo?
	Nenhum.
	Eu contei sobre a conversa que tive com Peter. Como foi a sua com Delphine?
	No mencionamos nada em particular.
O que ela disse sobre Peter?  insistiu Jennifer.
Charles respirou fundo.
	Ok, vou falar. Ela ficou muito impressionada com seu professor. Chegou a dizer o seguinte: "Como um homem com tanta cultura consegue namorar uma mera vendedora?"
	Mera vendedora?
	Sim. Lamento, mas voc insistiu. Delphine  do tipo que valoriza muito status social.
	Mas se ela pertence a uma famlia to rica, por que  modelo?
	Para contrariar os pais  explicou Charles.   bem capaz que a famlia dela no aprove Peter por ele no ser rico. S isso j  motivo mais do que suficiente para ela querer ficar com ele.
	Ento, Delphine no sai com um homem por gostar dele? Faz isso com outras intenes?
Charles se virou para ela.
	No  nada premeditado justificou ele.  Delphine  impulsiva. Para voc ter uma ideia, ela sentiu-se atrada Por mim durante uma festa em um iate s porque eu sabia Pilotar o barco. Ficou impressionada com esse meu talento, alm de outros.
	Que outros?
	Bem, no importa  emendou ele.
	Ento, o que a atrairia em Peter? Apenas o desejo de contrariar os pais?
	Pode ser  anuiu Charles.  Mas talvez ele tenha um lado secreto que voc no conhea. De qualquer maneira, no passar de mais uma conquista para Delphine. Ela  muito volvel.
	O que voc v nela, Charles? Sabe que Delphine 
volvel e que s quer se aproveitar dos homens e, no entanto, continua com ela. Por qu?
	Acho que no incio eu a escolhi pelas mesmas razes pelas quais ela me escolheu. Admito que gosto de loiras bonitas. Elas so um desafio para mim.
	Em que sentido?
	 excitante ter uma mulher que todo homem deseja. Parece estranho, mas  uma caracterstica do ego masculino. Uma espcie de definio de posse e de territrio.
	Ento, pelo bem de ns dois, espero que voc consiga manter seu territrio  ironizou Jennifer.
	Pelo seu bem tambm?  Ele franziu o cenho.  Pretende ficar com o professor?
	Sim.
	Mesmo que ele continue a trat-la como uma pessoa inferior?	
Jennifer deu de ombros. Por um momento, Charles sentiu-se solidrio a ela. Talvez o maior receio de Jennifer fosse ficar sozinha.	
	Quem sabe meu novo visual no transformar Peter em um amante com "A" maisculo  disse ela.
O comentrio no deixou Charles nem um pouco satisfeito. Ele no soube dizer o motivo, mas aquela ideia ni o agradou.
A tarde transcorreu de forma tranquila e a noite tambr quela altura, boa parte da populao das redondezas havia passado diante da loja por pura curiosidade. Pelcj visto, a ideia publicitria de Charles estava surtindo efeito.
Faltavam alguns minutos para o trmino do expediente, quando Jennifer ouviu a voz de Charles atrs de si.
Ele voltou.
Quando ela se virou, deparou-se com Peter bem no meio da vitrine, na direo do sof onde Charles estava sentado.
Peter sorriu para ela, mostrando bom humor, ou pelo menos fingindo.
Jennifer notou que ele estava mais elegante, trajando um casaco de gola alta, em vez do chapu com abas laterais que costumava usar. Tambm estava com um cachecol branco, ajeitado de um modo a deix-lo mais charmoso.
Depois de cumpriment-lo, Jennifer apontou para o cachecol e disse:
 muito bonito!
Ele agradeceu, parecendo lisonjeado. Mostrando o vestido de veludo preto que haviam selecio-nado para ela, Jennifer perguntou:
Gostou?
Peter a olhou de alto a baixo e assentiu, com um sorriso.
	Jennifer, quer sentar-se, por favor?  ralhou Charles.  No precisa ficar se exibindo desse jeito.
	Ei, no precisa ser implicante. S porque Delphine
ainda no apareceu...
	Ela deve estar, se aprontando para se encontrar com seu professor  provocou ele.  Veja s como ele veio elegante. Todo esse charme  para voc ou para Delphine?
	No sei  respondeu ela, servindo-se de uma taa de champanhe. Lembrando-se de um detalhe, acrescentou:  Ontem, quando ele estava me levando para casa, perguntou se Delphine viria aqui todas as noites. Falou como se estivesse pensando alto, mas tive a impresso de que ele esperava que eu soubesse. Respondi que no fazia ideia.
	Voc ter de aprender a manter seu namorado sob rdeas mais curtas  disse Charles.
	Como?
	Ora, voc deve ter truques femininos guardados na  para esse tipo de coisa.
Acho que no  respondeu Jennifer.  Talvez eu tenha de tomar algumas aulas com Delphine. Afinal,  assim que ela o mantm.
	O que est querendo dizer com isso?
	Por acaso ela passa tanto tempo quanto voc preocupada em saber se est interessado em outra pessoa? Se existir mesmo um lao entre vocs, ento voc est no lado da coleira e ela do outro.
Charles estreitou os olhos. Era a segunda vez que Jennifer o via aborrecido.
	No existe nenhum lao entre mim e Delphine. Deixamos que cada um tenha seu prprio estilo de vida.
	Otimo. E o mesmo tipo de relacionamento que existe entre mim e Peter. De qualquer maneira, acho melhor pararmos de falar sobre nossas vidas amorosas.
	Concordo  anuiu Charles.
Quando voltou a olhar para Peter, Jennifer notou que ele estava olhando de um lado para o outro da calada. Pensara que ele estivesse curioso sobre sua conversa com Charles, mas, pelo visto, no estava nem se importando. Perguntou-se o que seria preciso para chamar a ateno de Peter. Pelo visto, um vestido elegante e uma aparncia maravilhosa no eram suficientes. Ao menos quando se tratava dela.
Foi ento que avistou algum com um familiar casaco de pele abrindo caminho em meio  multido. Para seu espanto, a bela Delphine estava sorrindo para Peter, e no para o namorado.
	Est vendo o que estou vendo?  perguntou a Charles.
	Sim.
Delphine e Peter se cumprimentaram com um caloroso beijo no rosto. Em seguida, ela olhou para Charles e soprou-lhe um beijo.
	Estou ficando enjoada  resmungou Jennifer.  Ela est flertando com dois homens ao mesmo tempo!
	Agora no  hora para ficar enjoada  avisou Charles.  Vamos devolver fogo com fogo. Tente chamar a ateno de Peter enquanto tento chamar a dela.
Jennifer passou os vinte minutos seguintes tentando s guir o conselho de Charles. Acenou para Peter e lhe fez vrias perguntas. Ele respondeu a todas, mas voltava a ateno constantemente para Delphine. A loira tambm respondeu s questes de Charles, mas de vez em quando se virava para dar um sorriso provocante na direo de Peter. Por fim, Jennifer se cansou daquela situao ridcula. E pelo longo suspiro que ouviu Charles exalar, deduziu que ele estivesse com o mesmo desnimo.
	Acho que est na hora do intervalo.  Avisou a Charles, olhando para o relgio.  Espero que aqueles dois ainda estejam aqui quando voltarmos.
	Por qu? Acha que eles iro fugir enquanto estivermos fora da vitrine?
	No creio. Peter disse que iria me apanhar s dez horas, e Delphine deve ter marcado de sair com voc. S detesto ter de sair e deix-los livres de nossa vigilncia.
Charles observou os dois uma ltima vez. Pareciam mais animados que nunca com a conversa.
	Deus, o que ela viu nele?  perguntou ele.  Acho melhor avis-los de que voltaremos com outras roupas, se no nem notaro.
Dizendo isso, bateu no vidro e chamou a ateno de Delphine. As pessoas ao redor observaram a cena com curiosidade, mas Delphine e Peter nem se deram conta do que estava acontecendo. De fato, os dois s olharam para a vitrine depois que Charles bateu quatro vezes no vidro.
	Voltaremos em quinze minutos  disse ele, exagerando a pronncia das palavras.  Na outra vitrine, Ok?
	Ok  respondeu a loira, soprando-lhe outro beijo.
Quando Charles e Jennifer saram da vitrine, ela falou:
	Talvez estejam conversando porque est sendo difcil falar conosco atravs do vidro. Deve ser cansativo ficar l fora no frio, olhando para ns dois.
	As outras pessoas no pareciam cansadas  salientou Charles.  J vi algumas ficarem de p at durante uma hora nos observando.
	 verdade  anuiu ela.  Porm, Peter  um homem muito inteligente e precisa de mais estmulos do que ficar nos olhando em uma vitrine. Ele sente falta de falar com algum. 
	Acho que sei qual  o tipo de estmulo de que ele precisa  insinuou Charles.
Jennifer deu graas por chegarem ao fim do corredor e terem de se separar. No queria mais falar sobre aquilo com Charles.
Ao entrar no vestirio, conteve o flego ao ver a linda camisola vermelha de cetim que usaria no ltimo turno da noite. Parecia uma daquelas peas que costumavam ser vendidas por catlogo.
Depois de vesti-la, colocou o robe por cima, mas ele continuou revelando boa parte de seu colo alvo.
Mesmo ciente do embarao que seria aparecer vestida daquela maneira diante de Charles e de toda uma plateia, admirou-se no espelho uma ltima vez e saiu.
Charles a estava esperando  porta de entrada da vitrine, vestido com um pijama curto de seda preta e um robe da mesma cor. Ele estava simplesmente irresistvel, pensou Jennifer, contendo o flego por um instante.
	Delphine vai adorar v-lo assim  disse.
Charles a olhou de alto a baixo, mas logo desviou a vista.
	Se Peter tiver ao menos um pouco de sangue nas veias, quebrar aquela vitrine para chegar at voc.
Jennifer no pde negar que sentiu-se lisonjeada. Porm, achou estranho seu desejo de que Charles voltasse a olh-la. Para sua maior surpresa, foi isso que aconteceu em seguida.
	Voc no deveria estar to sexy, ou melhor, to atraente assim. E covardia. Alm do mais, no  essa a imagem
que desejo passar da Derring Brothers. No quero que isso acabe se tornando uma espcie de show de Las Vegas...
Jennifer arregalou os olhos.
	Minha aparncia est indecente?  perguntou, fechando mais o robe.  Acha que devo tirar este traje e tentar encontrar outro?
Charles a estudou novamente, pensativo.
	No  preciso. Acho que exagerei na opinio. Se Delphine estivesse usando uma camisola assim para ser fotografada, eu no a censuraria.  s que... em voc... No sei. Voc no  do tipo de mulher que usaria algo to provocante.
Jennifer lembrou-se de quando Peter lhe dissera algo parecido.
	Ento terei de adotar uma atitude diferente enquanto estiver usando a camisola  disse a ele. Assim no ficar to evidente que ela no  adequada para mim.
	O que pretende fazer?  indagou ele, preocupado.
	Primeiro vou me inspirar em Delphine e comear a falar assim...  respondeu, mexendo os lbios com sensualidade.
A camisola vermelha combina comigo agora?  acrescentou, inclinando-se para a frente e soprando um beijo para ele.
	Pare com isso  mandou Charles, parecendo no gostar da brincadeira.
Jennifer se sobressaltou.
	Eu s estava brincando.
	Pois guarde a piada para Peter. Talvez funcione com ele.
	Delphine fala assim, e voc nunca a censurou por isso.
	Voc no  Delphine. Seja voc mesma, Jennifer. Agora vamos. Temos de entrar na vitrine.
	Por que tanta pressa?  perguntou ela.  Ainda nem terminou o perodo do intervalo.
	Estamos aqui para trabalhar  afirmou Charles, parecendo estranhamente tenso.
	Est bem, patro.
Ele estreitou os olhos e fez um sinal para ela seguir na frente.	
Assim que entraram na vitrine, foram recebidos por uma nova srie de olhares curiosos e tambm de cobia.
	Veja s aquilo  falou Charles, indicando o lugar onde Peter e Delphine haviam ficado.
Os dois continuavam conversando, s que mais prximos e com uma atmosfera de maior intimidade.
	Acha que sentiram nossa falta?  ironizou Charles.
Jennifer ficou chocada com a viso. Nunca vira Peter com um olhar to compenetrado.
	Ser que esto apaixonados?  perguntou a ele.  At mesmo Delphine parece estar falando mais srio. Ela Parou de flertar. A conversa deve estar ficando mais intensa.
	Como  possvel que tenham se apaixonado em to pouco tempo?  indagou Charles, sem deixar de observ-los.
	J ouviu falar em "amor  primeira vista"?
	No acredito nisso  declarou ele.
	Tambm nunca aconteceu comigo, mas preste ateno neles.  Ela indicou o casal que ainda nem notara a presena dos dois.  Algo significativo parece estar acontecendo entre eles.
Charles balanou a cabea, inconformado.
	O que viram um no outro que os levou a se apaixonar?  perguntou a ela.
	O que Arthur Miller e Marilyn Monroe viram um no outro?  indagou Jennifer, sentindo um aperto no peito.
Estava perdendo Peter, e sabia que o fato seria inevitvel.
	Nunca pensei nisso  confessou Charles.  Ei, mas ainda podemos acabar com isso. No vou desistir assim, to facilmente!  bradou ele.
De sbito, bateu no vidro, bem no local onde os dois se encontravam.
	J voltamos!  gritou.
Peter e Delphine se viraram. A expresso de Peter tornou-se um verdadeiro mistrio, e Delphine se limitou a sorrir para Charles, dessa vez no se atrevendo a soprar algum beijo.
Algo muito srio estava acontecendo ali, pensou Jennifer. Moveu a mo, tentando chamar a ateno de Peter. Porm, ele abaixou a vista no mesmo instante, embora ela houvesse percebido que ele avistara seu sinal.
No entanto, Peter levantou a cabea em seguida e fitou-a de frente. Seu olhar foi triste, mas significativo e determinado. Jennifer se deu conta do que ele estava tentando lhe comunicar atravs do olhar, j que no podiam conversar no momento.
A mensagem foi muito clara. Mais do que ela gostaria que fosse. Peter a estava deixando para ficar com Delphine. Parecia to enfeitiado pela loira que no pensara duas vezes para romper o namoro, indo at contra seu comportamento normal.
Peter s podia estar agindo sob o efeito do desejo, pensou Jennifer. No era possvel que houvesse algum outro motivo que o levasse a fazer aquilo. Parecia bvio que ele nunca experimentara algo to intenso antes. Jennifer quase o invejou por um momento, sentindo os olhos se encherem de lgrimas.
Peter franziu o cenho, parecendo preocupado. Jennifer entendeu quando ele disse: "Sinto muito". Ela assentiu. De fato, entendia Peter, apesar de o estar perdendo.
Virando-se, tocou o brao de Charles. Ele estava em meio a uma tentativa de dilogo com Delphine, que mantinha uma certa distncia da vitrine, embora estivesse sorrindo.
	Disse que se encontraria comigo s dez  ele disse a ela.
	No posso  respondeu a loira.  Algo... aconteceu.
Jennifer se deu conta de que Peter fora muito mais direto com ela do que Delphine estava sendo com Charles. Talvez a loira fatal estivesse pensando em ficar com os dois, pensou, com ironia.
	O que pode ter acontecido em quinze minutos?  indagou Charles, inocentemente.
Delphine fechou o casaco com mais firmeza.
	Sinto muito, querido. Explicarei depois.
	Por que no agora?  insistiu ele.
Jennifer tocou o brao dele mais uma vez.
	Desista, Charles  falou, com gentileza.
Ele se virou para olh-la.
	O que est querendo dizer?
	No adianta insistir  respondeu Jennifer.  Acho que eles pretendem passar a noite juntos.
Charles estreitou o olhar.
	Ficou maluca?
	No. Est estampado nos olhos de Peter.
	Est dizendo que eles esto nos traindo?
	Shh...  sussurrou Jennifer, afastando-o da vitrine.  Vamos tentar agir como adultos, Ok? Voc tem muitas pretendentes. Encontrar algum para substituir Delphine em pouco tempo.
Sentou-se na cama e fez com que ele se sentasse a seu lado.
	Como sabe sobre eles?  perguntou Charles, chocado.
	O prprio Peter me falou atravs do vidro. Ele me olhou com ar de tristeza e disse que sentia muito por isso.
Tive certeza de que ele estava me deixando para ficar com Delphine.
	Bem, pois ela no falou isso para mim  argumentou ele.  Peter pode estar pensando que ter uma noite animada, mas Delphine no deu sinal de que pretendia dormir com ele.
	Mas ela disse que no poderia se encontrar com voc  lembrou Jennifer.
	Deve ter se lembrado de algum compromisso na ltima hora  justificou ele.  Estava difcil dialogar com um vidro entre ns.
	Charles...
Ele balanou a cabea, inconformado.
	Posso at aceitar que Delphine me troque por um atleta, por um ator famoso ou por algum milionrio. Mas por um professor metido a intelectual? Nem pensar!
Os dois olharam para o lado de fora da vitrine mais uma vez. Peter estava segurando as mos de Delphine, olhando-a como se estivesse com urgncia de sair dali com ela. A loira parecia estar resistindo com palavras, embora seu olhar no se desviasse do dele nem por um instante.
Por fim, ela pareceu pedir que ele esperasse um momento. Em seguida, olhou para Charles.
No mesmo instante, ele passou o brao pelos ombros de Jennifer.
	O que est fazendo?  perguntou ela.
	Tentando deix-los enciumados  Peter respondeu.
	Acha que isso vai funcionar?  indagou Jennifer, incrdula.
	Delphine  orgulhosa.
De fato, a loira pareceu surpresa ao v-los juntos daquela maneira. Jennifer decidiu participar do jogo de Charles apenas por ele. Suspeitava que Peter no se importaria nem um pouco, mas talvez conseguissem pelo menos afetar Delphine.
Porm, qual no foi o espanto de ambos quando o rosto da moa se iluminou com um sorriso. Apontando a mo enluvada para os dois, olhou de um para o outro, antes de se dirigir a Charles e perguntar:
	Vocs esto juntos?
Ele balanou a cabea afirmativamente, puxando Jennifer mais para si. Em seguida, enlaou o outro brao na parte da frente da cintura dela.
Jennifer comeou a sentir-se embaraada. Por outro lado, at que estava sendo muito agradvel ser abraada por Charles e sentir o calor do corpo dele. Deu graas por estarem apenas representando porque no saberia como agir se a situao fosse real.
Peter sussurrou algo para Delphine. Ela assentiu e voltou a olhar para Charles.
	Est mesmo feliz com ela?
Charles beijou a mo de Jennifer, antes de olhar para Delphine com ar de desafio.
Todavia, a loira se limitou a suspirar. E de puro alvio, segundo Jennifer percebeu.
	Boa sorte, querido!  gritou ela para Charles, soprando-lhe um ltimo beijo.  Seja feliz!
	O qu?
Charles se afastou de Jennifer no mesmo instante e ficou boquiaberto ao ver a moa segurar a mo de Peter. O professor disse adeus a Jennifer, antes de partir com a nova namorada. Os dois mais pareciam adolescentes que haviam acabado de descobrir o amor, decidindo comemorar o fato sob as luzes romnticas da cidade.
	Acho que o feitio da cena de cime virou contra o feiticeiro  ironizou Jennifer.
Charles se aproximou da vitrine, tentando dar uma ltima olhada nos dois.
	No acredito nisso! Delphine estava to louca pelo seu professorzinho que me deixou para ir direto para a cama com ele!
	No precisava dizer isso com todas as letras  Jennifer o censurou.
No entanto, sabia que Charles devia ter razo. Delphine e Peter pareciam ansiosos demais para carem nos braos um do outro. Por mais humilhante que fosse, ela se viu obrigada a admitir que Peter nunca a havia olhado daquela maneira.
	Voc tambm precisa enfrentar a realidade  disse Charles.  Seu professorzinho mal estava podendo esperar para levar Delphine para a cama.
	No fale assim. Acho que Peter lidou com o mximo de dignidade possvel diante das circunstncias.
	Ainda tem coragem de defend-lo?  Ele se indignou. 	O sujeito a deixou para cair na cama mais prxima com a minha namorada, e voc ainda acha que ele agiu com dignidade?
	Acho que Peter foi atingido por algo muito forte, impossvel de ser contido.  Com um ar de tristeza, acrescentou:
	S gostaria que ele houvesse sentido isso por mim.
	Se tivesse sido mais atenta  sua vida sexual, ele no a trocaria por outra  replicou Charles, andando de um lado para outro, alheio aos olhares curiosos das pessoas.
	Nunca tivemos uma vida sexual  revelou Jennifer, com um suspiro desolado.
Charles a olhou de repente.
	Voc nunca...?  Um brilho diferente surgiu nos olhos dele.  No  de admirar que ele estivesse louco daquele jeito por Delphine. O homem estava quase fora de si!
A irritao de Charles desapareceu como que por encanto. Ele sentou-se na cama, ao lado de Jennifer.
	Por que nunca dormiram juntos?
	Porque nunca tive pressa para isso e nem Peter, pelo menos era o que parecia  corrigiu ela, com ironia.  Ele no se mostrou ansioso nesse aspecto. Chegou at a me dizer que eu no era o tipo de mulher com quem um homem pensaria em dormir sem compromisso. Dizia gostar de mim por eu ser do tipo mais srio. Porm, acho que ele sempre gostou mesmo de loiras, como Delphine.
Charles a fitou nos olhos.
	Ele  maluco.
Jennifer riu.
	Acha Peter maluco por haver escolhido uma mulher pelo mesmo motivo que voc?
Charles pareceu confuso por um momento. Olhou para Jennifer, como se nem ele mesmo soubesse mais qual era sua preferncia por mulheres.
	Ok, pode at ser  admitiu ele.  Mas aqueles dois no tm nada em comum! Sentem-se atrados um pelo outro agora, mas o que sentiro amanh?
	E uma boa pergunta  anuiu Jennifer.  Acha que Delphine vai querer voltar para voc?
	No sei.  Charles falou como se nem se importasse mais com aquilo.  E quanto a Peter? Ser que vai querer voc de volta, depois de viver essa "aventura excitante"?
	Acho que no.  Jennifer balanou a cabea negativamente.  Mesmo que o relacionamento no d certo com Delphine, com certeza ele no vai querer voltar ao que tnhamos antes desse rompimento. No depois de experimentar uma forte paixo. Para ser sincera, eu o invejo nesse momento.
Charles a olhou, com ar de desaprovao.
	Jennifer, isso no combina com voc. Deve estar abalada. Afinal, perdeu seu namorado e est se sentindo humilhada. Porm, no deve ter uma trrida paixo com qualquer um. Poderia terminar mais infeliz ainda.
	No acho que eu esteja infeliz  contestou ela.  Finalmente estou comeando a perceber o desejo da vida.
Charles meneou a cabea.
	No, Jennifer. Talvez essas roupas sexies a estejam afetando de alguma maneira. No mude porque seu namorado fugiu com uma loira volvel, e voc est se sentindo humilhada. O homem certo ainda vai aparecer na sua vida, e no ser preciso que voc mude para que isso acontea. Acredite em mim.
	Est falando como se fosse meu pai.
	No! Nada disso  contestou Charles.  Considero-me mais como seu irmo mais velho. Por isso  que estou lhe dizendo isso.
	Pois tambm no quero ser sua irm!
	Desculpe-me. S estou tentando ajudar. No preciso de sua ajuda para resolver assunto sobre a minha vida!
	Ei, no fale assim comigo  avisou Charles.  Tenho poder de deciso nessa empresa e posso despedi-la em um piscar de olhos. Assim!  Ele estalou os dedos.
	Faa isso!  Jennifer o desafiou.
Charles a olhou por um momento.
	Ok  disse, em um tom de voz mais calmo.  Estamos alterados agora, e  melhor deixarmos esse assunto de lado por enquanto.
	Sim, senhor  respondeu ela, no resistindo a uma ltima provocao.
Ser que Charles teria mesmo coragem de despedi-la por um motivo to idiota quanto uma discusso sobre suas vidas amorosas?, pensou Jennifer.
Ele andava agindo de maneira estranha, desde que haviam comeado o trabalho na vitrine. Nunca o vira fazer uma ameaa autoritria como aquela antes.
Talvez Charles estivesse mesmo apaixonado por Delphine e no quisesse se conformar com a ideia de ser deixado por ela. Bem, mas isso era problema dele. J tinha suas prprias decepes para lidar.
Se Charles quisesse despedi-la no dia seguinte, tudo bem. Faria o que Peter sempre a aconselhara e voltaria para a faculdade.

CAPITULO V

Na manh seguinte, depois que o sr. James e Christine terminaram de arrum-la, Jennifer se dirigiu  cozinha da vitrine.
Charles chegou pouco depois, trajando uma roupa informal.
	Bom dia  ele a cumprimentou.
Jennifer no teve certeza se ele falara com frieza ou se apenas com formalidade.
	Bom dia  respondeu.  Estou despedida?  Foi direto ao assunto.
	No.
	Por qu?
Ele no conteve um sorriso.
	Estava esperando que eu a despedisse?
	No. Mas pareceu to aborrecido ontem que pensei que acabaria cumprindo a ameaa. Compreendo que  melhor um funcionrio ser despedido quando no est atendendo s expectativas do patro.
Charles fitou-a por um instante.
	Engraado  disse, por fim ,  minha funcionria, mas est sempre me colocando no devido lugar. Quando discutimos, voc argumenta sem sequer pestanejar. Nunca  subordinada como os outros. Por qu?
	Nem eu mesma sei  confessou Jennifer.  Tem at o direito de me repreender. Falo demais de vez em quando.
	Deve considerar que tem essa liberdade comigo por sermos to parecidos em certos aspectos.
	Mas pertencemos a mundos diferentes, no se esquea.
	Para mim, voc sempre foi o filho do patro, embora voc tente agir diferente.
	Ontem  noite, passamos por uma verdadeira crise  afirmou Charles, como se no houvesse escutado o que ela dissera.  Agora temos um drama em comum, e no podemos negar que isso altera o relacionamento patro-funcionrio. Alm disso, seria difcil despedi-la mesmo que eu quisesse. Voc  indispensvel no setor de eletrodomsticos. Meu pai a considera tanto que me mataria se eu fizesse isso. Tambm existe o detalhe de que eu teria de trabalhar na vitrine com outra pessoa at o final da semana, o que no me agradaria nem um pouco.
Jennifer se perguntou por que Charles estaria sentindo aquela necessidade de se explicar. Parecia at uma indicao de que ele a encarava como uma amiga, em vez de uma funcionria. Sentindo-se aliviada, respondeu:
	Sendo assim, fico feliz que no tenha me despedido.
Porm, antes de comearem o trabalho do dia, ela contou:
	Recebi um telefonema de Peter esta manh.
Charles a fitou no mesmo instante.
	E o que ele disse?
	Que ele e Delphine decidiram passar as frias juntos, em uma propriedade no Lago Tahoe. Ele j est de frias, por isso eles partiro essa noite.
Charles riu, parecendo bem-humorado.
	Delphine queria que eu viajasse com ela para l neste final de ano, mas falei que no podia por causa da campanha da vitrine. Realmente ela no perdeu tempo em arrumar um substituto.  Balanou a cabea, incrdulo.  Ele lhe disse algo sobre ela?
	Apenas que lamentava pelo sbito rompimento comigo, mas que quando conheceu Delphine simplesmente no conseguiu resistir. Ficou "perdido", segundo ele.
	Perdido?
	Foi a palavra que Peter usou. Disse que nunca havia conhecido uma mulher como ela.  Jennifer suspirou.  Tambm citou algo sobre perder o senso de direo e encontrar-se novamente...
		Continue.
Ela teve de se esforar para repetir a explicao de Peter. Respirando fundo, prosseguiu:
	Ele disse que se viu "perdido no xtase". Pode parecer estranho, mas foram essas as palavras. Talvez se referindo ao que aconteceu depois que eles foram embora, ontem.
	E Delphine sentiu o mesmo?
	Pelo visto, sim. Foi ela quem o convidou para ir a Tahoe.
Ele assentiu.
	Ela  to boa amante assim?  Jennifer no resistiu  curiosidade de perguntar.
Pela primeira vez, ela o viu enrubescer.
	Tenho mesmo de responder a isso?
Foi a vez de Jennifer sentir-se embaraada. Aquele no era o tipo de pergunta para se fazer ao patro, principalmente logo depois de haverem discutido sobre o relacionamento patro-funcionrio.
	Desculpe-me. No sei o que deu em mim para fazer uma pergunta to indiscreta.
Ele riu.
	Sei o que est pensando. Quer saber que tipo de comportamento sexual fez Peter correr para os braos de Delphine. Eu e ela tivemos um relacionamento ardente no incio, mas nos ltimos tempos parecia que andvamos ocupados demais para dar ateno um ao outro. Respondendo  sua questo, de fato ela  muito sensual. Mas aposto que logo se cansar dele, como j aconteceu com vrios outros.
	Espero que com Peter seja diferente. Apesar de tudo, acho que ele merece ser feliz, vivendo uma grande paixo.
	Parece estar aficionada pela ideia de "grande paixo"
nos ltimos tempos  observou Charles.  Eu lhe disse que isso no combina com voc.
	Talvez eu tenha me cansado de ser to "certinha".
	Ei, est comeando a me preocupar.
	Mas foi voc quem sugeriu que eu precisava me soltar mais  lembrou Jennifer.
Charles pegou uma caixinha de leite na geladeira.
	Sim, mas no fundo no  isso que voc realmente quer. No deve ir de um extremo a outro.
	Por que no? Eu gostaria de experimentar como  se deixar levar por emoes intensas.
	Pode acabar sendo arrastada pela correnteza e de repente se ver no meio do mar  avisou Charles.
Jennifer sorriu.
	Oh, no se preocupe tanto. Eu s gostaria que isso acontecesse. Mas provavelmente nunca ocorrer. Como eu mesma j citei, sou conservadora demais para me entregar a uma "grande paixo", sem medir as consequncias. Nunca fui de brincar com meus prprios sentimentos.
Seus olhos se encheram de lgrimas, mas ela se esforou para cont-las.
	Tudo bem com voc?  perguntou Charles.
	Sim, claro  respondeu ela, respirando fundo.
Pouco depois, j estava mais calma. Sempre admirara seu autocontrole. Mas tambm comeava a desconfiar de que ele estava sendo um dos motivos de suas frustraes.
Dois dias depois,  hora do almoo, Charles observou Jennifer discretamente, enquanto comiam.
A certa altura algum acenou do lado de fora, e ela retribuiu o cumprimento com outro aceno e um sorriso. Estava linda, vestida com um conjunto de cashmere amarelo-claro.
Charles olhou para o prprio prato provavelmente pela dcima vez, tentando ordenar os pensamentos.
Tinha de admitir a verdade para si mesmo: estava comeando a desejar Jennifer. Sempre gostara de mulheres sensuais e extravagantes. Ento, por que vinha sentindo vontade de t-la em seus braos nos ltimos tempos?
O perodo mais difcil era  noite, quando ela usava aquelas camisolas sensuais, enquanto estavam no quarto da vitrine. Na noite anterior, por exemplo, tivera de se controlar para no armar um escndalo ao notar o olhar de cobia com que os homens a fitavam, do lado de fora da vitrine. Teve vontade de pedir a Jennifer que se cobrisse com o lenol, enquanto lia, mas achou que seria uma atitude ridcula demais de sua parte.
	O que foi, Charles? Est com algum problema?
A voz de Jennifer o fez voltar  realidade.
	Hum? No, no. Que problema poderia haver?
	Pensei que no estivesse sentindo-se bem.
Ele tomou um gole de suco gelado.
	Estou bem, no se preocupe  mentiu ele.
Nunca sentira-se to estranho antes, nem com tantas mudanas repentinas em suas emoes. No entanto, estava comeando a admitir e a aceitar a mudana. Vinha tentando negar sua atrao por Jennifer desde que ela entrara na sala da entrevista coletiva, feito uma deusa arrasadora de coraes.
Todos os momentos que haviam passado juntos, desde o incio do trabalho, levaram-no a conhec-la melhor, e a desej-la cada vez mais.
O que deveria fazer afinal? Jennifer era sua funcionria, e s isso j era um bom motivo para ele se conter.
No entanto, o que realmente o estava fazendo hesitar era a prpria Jennifer. Como ela reagiria se soubesse sobre seus sentimentos?
Mais do que nunca, sabia que Jennifer seria capaz de arras-lo com um gesto, uma palavra. Ela estava se apoderando perigosamente de seu corao. No tinha ideia se ela aceitaria ter algo alm de mera amizade com ele. Mas precisava tentar.
Ao terminarem a refeio, ela disse:
	Tem certeza de que est sentindo-se bem? No comeu quase nada.
	Resolvi perder alguns quilos  justificou ele.
	Voc parece estar com um timo fsico.
	Obrigado.  Afastando o prato para o lado, acrescentou:  Se j terminou sua refeio,  melhor comearmos a decorar a rvore de Natal que nos deixaram.  nossa tarefa da tarde.
	Sim, senhor  brincou ela.  Pronta para a ao!
Charles no pde deixar de desejar que Jennifer estivesse pronta para outro tipo de ao que no fosse decorar uma rvore de Natal. Entretanto, tratou logo de deixar o penamento de lado e ficou de p.
Com a ajuda de Jennifer, abriu as caixas que o pessoal deixara no interior da vitrine, depois do expediente da noite anterior.
	Vejamos...  disse Charles, examinando o contedo das caixas.  Acho melhor comearmos preparando os pisca-piscas. Depois colocaremos o restante dos enfeites.
	Ok  anuiu ela.
Fazia algum tempo que estavam distribuindo os pisca-piscas nos galhos do pinheiro quando Jennifer perdeu o equilbrio e quase caiu da escadinha, onde subira para enfeitar um galho mais alto.
Porm, um par de braos fortes a amparou por trs, fazendo-a colidir contra um slido corpo masculino.
Jennifer notou que Charles a manteve assim durante mais tempo do que o necessrio. O calor daquele corpo msculo a envolveu em uma onda de expectativa. Estaria ele dando indcios de que a desejava?, perguntou-se.
	Estou bem agora, obrigada  disse a ele.
Mesmo sem dizerem nada abertamente, Jennifer ficou muito consciente de que algo acontecera naquele momento. Poderia at jurar que sentira o corao de Charles acelerado junto s suas costas. Mas, pensando melhor, tambm poderia ser fruto de sua mente, ansiosa de viver uma grande paixo.
A hora do intervalo, Jennifer foi direto para o vestirio. Enquanto colocava o elegante vestido selecionado para aquela noite, pensou no que havia acontecido quando perdera o equilbrio e fora parar nos braos de Charles.
Sentira algo quase tangvel entre eles. Algo diferente, mas muito excitante. Fora como se Charles quisesse man-t-la nos braos para sempre.
Corria o risco de estar imaginando coisas, mas tambm havia a possibilidade de ele sentir-se atrado por ela. Durante as noites, flagrara-o a observ-la por vrias vezes. Sempre que seus olhares se encontravam, Charles tratava logo de desviar o dele, ocupando-se com alguma tarefa.
S que parecia estranho que ele estivesse interessado nela nesse sentido. Charles falara por mais de uma vez que a considerava como uma irm.
Porm, se estivesse enganada a esse respeito, como deveria corresponder? A possibilidade de ter Charles como amante nunca passara pela sua cabea.
Amante? A palavra ficou ecoando em sua mente, fazendo-a sentir um leve calor pelo corpo. Por que a palavra "namorado" no lhe viera  mente? Talvez porque no combinasse com Charles.
Depois de retocar a maquiagem e o penteado, voltou para a vitrine. Ele j se encontrava  sua espera, vestido com o smoking. Estava colocando alguns enfeites na rvore de Natal. Do lado de fora, o nmero de pessoas aumentara ainda mais com aquela nova atrao.
Jennifer se aproximou, tentando manter uma atitude casual, mas foi difcil continuar pelo modo como Charles a fitou. Os olhos azuis a observaram com um inegvel brilho de desejo. Mas era como se ele estivesse tentando lidar com algo novo.
	Voc est linda  elogiou ele.
	Voc tambm est muito elegante.
	Comecei a colocar os enfeites na rvore.
	, eu percebi.
	Tambm coloquei outro enfeite no ambiente.
	Onde?  perguntou ela.
	Olhe atrs da porta por onde entrou  falou ele.
Curiosa, Jennifer foi at l. Sorriu ao notar que Charles viera logo atrs dela.
	Olhe para cima  mandou ele.
Ela levantou a cabea.
	O que  aquilo?  perguntou ao avistar uma espcie de ramo verde arrematado por um lao vermelho.
	No sabe?
Jennifer olhou com mais ateno o galhinho preso  porta.
	 visco!  exclamou, ao reconhecer a planta.
	Isso mesmo.  Charles sorriu.  E voc sabe o que acontece agora?
"Oh, meu Deus", pensou ela. Estaria ele pensando em seguir a tradio e beij-la sob o visco? Pelo brilho nos olhos azuis, no foi difcil deduzir a resposta.
	Mas estamos em uma vitrine, com todo mundo nos olhando  lembrou a ele.
	Sim, mas as pessoas esperam que sigamos a tradio. Acha justo desapont-las?  perguntou Charles, aproximando-se devagar.
	No sei...
Jennifer ia argumentar, mas no teve tempo porque Charles a envolveu nos braos e beijou-a com classe, inclinando-a ligeiramente para trs.
O beijo foi breve, mas estonteante. Quando ele a soltou, ela estava zonza, como se estivesse pisando em nuvens. Demorou algum tempo para se dar conta de que as pessoas haviam comeado aaplaudi-los do lado de fora.
	Pronto  murmurou Charles, com voz profunda. Viramos celebridades. Foi fcil, no?
	Tudo pelo esprito de Natal  afirmou Jennifer, ainda meio ofegante.
	Feliz Natal, Jennifer.
	Feliz Natal.  Quando voltou a olh-lo, disse:  Est com batom nos lbios.
	Tire-o para mim.
	Tem um leno?
	Use os dedos mesmo.
Ela hesitou um instante, mas acabou fazendo o que ele sugerira. O brilho de sensualidade voltou aos olhos de Charles.
	Vamos terminar de enfeitar a rvore?  perguntou, ao terminar de retirar o batom.
Charles sorriu, com charme.
	Enfeites, visco e voc. Esse Natal ser inesquecvel. Ser uma pena ter de sair da vitrine na semana que vem.
	As pessoas ficariam entediadas em nos olhar por muito tempo  afirmou Jennifer.
	No se trocssemos um beijo como esse de vez em quando  insinuou ele.
Jennifer enrubesceu.
A noite, ao chegar em seu apartamento, Jennifer sentou-se no sof e ligou a tev no final do noticirio, deixando o aparelho sem som.
Tentou refletir com calma sobre o que acontecera naquela tarde. Depois do beijo inesperado, Charles voltara a agir normalmente. Porm, para seu espanto, ao sarem da vitrine, s dez horas da noite, ele enlaara o brao em sua cintura. O gesto fora apenas amigvel, mas, ainda assim, indito para ela. Charles nunca fizera aquilo antes, exceto para provocar cime em Delphine.
No sabia ao certo o que fazer. Charles agia como se estivesse realmente interessado nela, porm ainda era difcil acreditar que aquilo fosse verdade.
Sobressaltou-se quando o telefone comeou a tocar.
	Jennifer? Sou eu, Charles.
	Charles?
	Ligue a tev no noticirio.
	A minha j est ligada.
	Oh, ento ouviu que iro mostrar algo sobre ns? perguntou ele.
	O qu? No, a tev est sem volume. O que iro mostrar?
	Disseram apenas que depois dos comerciais ser exibido um beijo ousado, gravado na vitrine viva da Derring Brothers.
Jennifer pegou o controle remoto e aumentou o volume da tev no momento em que o noticirio voltara ao ar. Depois de explicar o que estava sendo feito durante aquela semana na vitrine da famosa loja de departamentos, o ncora prosseguiu:
	...e a vitrine ficou realmente viva esta tarde. Um homem que havia levado uma cmera para filmar os filhos diante da vitrine conseguiu obter essas imagens...
	Oh, no  gemeu Jennifer, assistindo  cena do beijo sob o visco.
	Est assistindo?
	Sim.  Jennifer ficou surpresa ao ver a paixo com que Charles a beijara.  Oh, meu Deus, isso  to embaraoso  murmurou.
	Embaraoso?  perguntou Charles.   fantstico!
	Tentaremos dar mais informaes sobre esse novo romance no noticirio de amanh  declarou o ncora, ao final da reportagem.  Boa noite.
Jennifer desligou a tev.
	O que h de fantstico nisso?  perguntou a Charles.
	Foi praticamente uma propaganda de graa para a Derring Brothers!  exclamou ele.  A propsito, voc estava linda na tev. Para haver sido pega de surpresa, correspondeu muito bem ao beijo. Estou orgulhoso de voc!
	Mas Chicago inteira viu esse beijo! E ainda falaram em romance!
	E da?
	E da que no  verdade! Somos apenas... amigos.
Seguiu-se um momento de silncio.
	Sim, apenas amigos. Bem, um romance, seja ele real ou no, sempre chama a ateno das pessoas. O pblico estava esperando por algum romance depois das perguntas que os jornalistas nos fizeram no dia da coletiva. Tudo est acontecendo segundo nossas expectativas. Portanto, pode ficar feliz.
	Aquele beijo foi apenas uma encenao, no , Charles?
	Bem, mais ou menos. No posso negar que tambm a beijei porque estava com vontade.
	Estava?
	Sim.
 E...  Jennifer engoliu em seco.  Voc gostou?
	Claro que sim!
	Oh. Ento, pretende incluir uma rotina de beijos no script dos prximos dias?  brincou ela, sem saber muito bem como conduzir a conversa.
	Para mim est timo  respondeu Charles, com bom humor.  E voc? Iria gostar?
Jennifer sentiu o corao acelerar.
	Acho que sim  admitiu.  Tudo pela Derring Brothers.
Charles riu.
	Obrigado pela cooperao. Durante o beijo, quero dizer.
	Oh, tudo bem.
Seguiu-se outro momento de silncio. Charles parecia estar pensando em algo mais para dizer ou esperando que ela dissesse algo.
	Acho melhor eu ir deitar e ter meu sono da beleza  falou Jennifer, tentando manter o clima de bom humor.  Quero estar tima para entrar na vitrine amanh.
	No vai precisar se esforar nem um pouco  gracejou Charles.  At amanh ento.
	Boa noite.
Depois de desligar, Jennifer tomou um banho demorado e deitou sob os lenis. Porm, o sono no veio facilmente.
Por que o filho de um milionrio se interessaria por ela?, perguntou-se. Era apenas a maquiagem e os penteados que a deixavam bonita o suficiente para Charles sentir aquela atrao. Quando a semana chegasse ao fim, e ela voltasse para sua vida comum, ele no lhe daria mais ateno. Charles estava atrado por seu glamour artificial, no por ela.
Esse "romance", se  que existia algum, terminaria antes mesmo de comear. No entanto, seria interessante deixar Charles conduzir o jogo por enquanto. No podia negar que sentia-se imensamente atrada por ele. Ainda assim, tinha conscincia de que no deveria se envolver demais. Corria o risco de ter seu corao arrasado a qualquer momento. E com muito mais intensidade do que Peter conseguira faz-lo.

CAPITULO VI

Na manh seguinte, quando Jennifer saiu do vestirio, usando uma saia longa e um suter combinando, encontrou Jasper Derring esperando por ela.
	Bom dia, sr. Derring  cumprimentou-o com um sorriso.
Charles dissera que o pai o estava substituindo em algumas funes durante aquele perodo. Por isso estava sendo comum encontr-lo pela loja durante o dia.
	Bom dia, Jennifer. Est adorvel, como sempre.  Ele se aproximou mais e abaixou o tom de voz quando algumas pessoas passaram por eles.  Quero apenas dizer que estou satisfeito com a publicidade que voc e Charles esto conseguindo. A reportagem exibida ontem pela tev e as notcias dos jornais de hoje mostrando vocs trocando um beijo sob o visco ficaram timas.
Jennifer enrubesceu, surpresa com a aprovao do pai de Charles.
	Fico contente que tenha gostado, sr. Derring. Particularmente, achei o acontecimento um pouco embaraoso.
	Oh, foi apenas um beijo  afirmou ele.  Mas a circunstncia trouxe um ar de romantismo  promoo de Natal da Derring Brothers. Nossas vendas j estavam aumentando antes de ontem  noite, e agora tenho certeza de que crescero ainda mais.
	Isso  timo, mas talvez as pessoas fiquem desapontadas quando descobrirem que Charles e eu no... no temos nenhum envolvimento. Se estiverem esperando que essa histria sobre convites de casamento se torne realidade, ficaro desiludidas. Espero que isso no afete os negcios da loja depois do Natal.
Jasper franziu o cenho, parecendo concentrado no que ela havia dito. De fato, Jennifer teve a impresso de que ele ficara realmente preocupado. Por fim, sorriu para ela e disse:
	Agradeo por sua preocupao, mas pode ficar tranquila. Se cometermos algum erro de publicidade, a culpa ser nossa, no sua.
	Ento, se a publicidade no der certo porque Charles me beijou ser culpa dele?
	Acredito que a publicidade dar certo. Quanto ao beijo... Bem, acho que foi um impulso de Charles. Meu filho  muito impulsivo, como voc j deve ter notado. s vezes, isso  um problema, mas geralmente  uma atitude at benfica na vida dele. Quando Charles age com impulsividade, costuma obter seus resultados mais brilhantes.
Jennifer assentiu, imaginando por que o sr. Derring estaria perdendo tanto tempo para falar com ela.
	Bem, tenho de cuidar de alguns assuntos agora  anunciou ele.  Estamos muito satisfeitos com seu trabalho. Espero que no esteja achando essa histria de ser mane quim vivo cansativa demais.  Ele sorriu.
	Est sendo mais divertido do que imaginei  respondeu Jennifer.  A propsito, tive a impresso de t-lo visto em meio s pessoas ontem  tarde.
Jasper sorriu.
	Voc enxerga muito bem. Na verdade, fui dar uma espiada em vocs dois algumas vezes e tambm observar as reaes do pblico. A experincia foi bastante curiosa. Existe uma espcie de voyeurismo nesse tipo de publicidade, e acho que  isso que atrai as pessoas.  Fechou o boto do palet.
 Tenho de ir. Continue se dedicando ao trabalho, Jennifer.
Minutos depois, ela entrou na vitrine onde estava montada a cozinha. Charles j estava l, usando um avental vermelho por cima da roupa.
Quando comeou a ajud-lo a preparar o caf, disse:
	Acabei de conversar com seu pai. Ele est feliz com o resultado da publicidade.
	Eu sei. Ele telefonou antes de eu sair de casa. Notou que a multido aumentou esta manh?
	Sim  respondeu Jennifer, fitando as pessoas de diferentes idades, que os observavam com olhares curiosos.
  provvel que algumas dessas pessoas fiquem por a o dia inteiro, esperando que algo mais acontea.
	No iremos desapont-las.
	No?  Jennifer arqueou as sobrancelhas.  H algum beijo programado para hoje?
	No  respondeu Charles.  Precisamos manter a discrio.
O comentrio a fez rir.
	No acho que tenhamos muito disso.
	Talvez eu no tenha, mas voc sempre foi muito reservada. Est querendo dizer que perdeu o senso de discrio?
	O que voc acha?  perguntou Jennifer, fingindo um ar provocante.
	Acho que precisamos parar com isso. Estou sendo uma m influncia para voc.
	Engraado, antes voc dizia que eu era comportada demais. Agora acha que estou muito mudada. Charles, o que est havendo entre ns?  perguntou, num impulso.
Ele a olhou por um momento.
	No tenho certeza. Confesso que tambm estou um pouco confuso a esse respeito. Eu costumava consider-la como uma pessoa com quem eu gostava de conversar. Mas agora...  Ele desviou a vista.
	O qu?
Charles voltou a fit-la.
	No consigo parar de pensar em voc. Quando estamos prximos um do outro, meu maior desejo  toc-la, beij-la...
Jennifer conteve o flego.
	Deve ser por causa do penteado e de toda a maquiagem que estou usando  justificou ela.  Fiquei mais parecida com as mulheres pelas quais voc sente interesse.
	Talvez. Mas acho que tudo isso s me fez notar o que j existia em voc.
Jennifer abaixou a vista, enrubescendo.
Do lado de fora, as pessoas os observavam com olhares curiosos, tentando entender o que eles estavam conversando. Quando ela voltou a fit-lo, notou um brilho de desejo nos olhos de Charles.
De sbito, ele a tomou nos braos e beijou-a. O contato foi breve, mas cheio de ternura. Ao se separarem, os dois se entreolharam por um instante.
S ento Jennifer comeou a ouvir algo semelhante a aplausos. Ao olhar pela vitrine, notou que as pessoas estavam aplaudindo a cena. Tomada por uma nova onda de embarao, olhou para Charles.
	Sabemos como animar uma plateia  disse a ele, com bom humor.
	Est sendo nossa especialidade  respondeu Charles, tambm sorrindo.
Charles notou que a multido aumentara ainda mais no final da tarde. Alguns curiosos estavam at com cmeras, talvez esperando flagrar um momento interessante, como o que ocorrera pela manh.
Enquanto vestia seu smoking, para a ltima entrada da noite, ouviu seu assistente comentar que as vendas haviam aumentado mais do que eles esperavam e cresceriam ainda mais at o Natal. Charles ficou satisfeito por estar atingindo seu objetivo.
Quando Jennifer apareceu na vitrine, algum tempo depois dele, foi recebida com assobios e exclamaes de admirao. Ele prprio ficou boquiaberto ao ver quanto ela estava irresistvel, com um vestido verde de gola alta, mas que deixava os ombros nus. Os cabelos presos em um coque elegante deixaram-na com uma aparncia sofisticada, assim como os brincos de brilhante fornecidos pela joalheria da loja.
	Voc realmente fez uma entrada triunfal  observou ele.
Serviu duas taas com champanhe e entregou uma a ela. Levantando sua taa ao propor um brinde, falou:
	A mulher mais linda de Chicago!
Jennifer sorriu, com sua costumeira modstia. Ela era mesmo especial, pensou Charles. As outras mulheres que ele conhecia estavam sempre esperando receber elogios, mas Jennifer ficava surpresa cada vez que ouvia um.
Ao sentarem-se  mesa, ela olhou para os pratos, curiosa.
	O que  isso?  perguntou, indicando uma pequena tigela de cristal.  Parece comida de gato.
	Pat de fgado de ganso  respondeu Charles.   muito caro, mas deve ter o mesmo gosto de comida de gato.
Nunca gostei de fgado.
	J provou?
	No. Preferi provar apenas o coquetel de camaro.  mais seguro.
Ficou observando Jennifer provar o pat com torrada.
	Que tal?  indagou.
	Por incrvel que parea,  muito bom. Deve engordar, mas  muito bom.
	Voc no precisa se preocupar com isso. Tem um corpo muito elegante, com curvas nos lugares certos.
	Obrigada.  Jennifer sorriu.
Os dois trocaram um olhar intenso. De repente, foram distrados pelo rudo de algum batendo no vidro. Do lado de fora, pelo menos trs pessoas estavam batendo as mos enluvadas na vitrine e falando: "Beijo, beijo!"
Jennifer pareceu surpresa, mas sorriu, achando tudo aquilo engraado.
	Isso me faz lembrar do que as pessoas fazem em casamentos, pedindo que os noivos se beijem.
As pessoas ficaram expectantes, preparando as cmeras.
	Acho que no vo parar enquanto no atendermos ao pedido  disse Charles.  Aceita a brincadeira?
	Desde que no tenhamos de posar como noivos depois...
Charles sorriu, inclinando-se na direo dela. Jennifer
tambm se inclinou, permitindo que ele a beijasse. O beijo foi breve, mas intenso. A multido comemorou com gritos e muitos flashes.
O comentrio de Jennifer sobre posarem como noivos no saiu mais da mente de Charles. De sbito, uma nova ideia surgiu em sua mente. Se era romance que chamava a ateno das pessoas, talvez a Derring Brothers devesse montar uma vitrine engraada no ms de maio, sobre o contexto de um casamento. Precisaria se lembrar de falar isso com sua equipe, pensou.
Observando como Jennifer agia com naturalidade diante das pessoas, imaginou se haveria um modo de convenc-la a posar como noiva na vitrine de maio. Claro que ela trabalharia apenas como modelo, j que no estava noiva de ningum. Pelo menos por enquanto.
No ntimo, deu graas por Peter haver se interessado por Delphine.
Jennifer pegou o romance que estava lendo todas as noites, enquanto tinha de ficar na parte da vitrine onde havia a cama.
O romance de capa dura era de uma autora conhecida. A histria era interessante, e Jennifer chegara a uma parte mais picante do enredo.
O atraente marqus de Sans Souci estava prestes a possuir Arianna, a virgem mais insinuante que Jennifer j vira ser retratada em um livro.
Em meio  cena de amor descrita no enredo, ela ficou enrubescida ao imaginar Charles no lugar do heri e ela prpria no lugar da linda Arianna.
Ao olhar para Charles, ficou surpresa ao notar que ele a estava observando. Num impulso, fechou o livro no mesmo instante.
	Terminou de l-lo?  perguntou Charles, arqueando uma sobrancelha.
	Ainda no.
	No gostou da histria?
	Oh,  muito boa  respondeu Jennifer, ajeitando o decote da camisola branca que haviam separado para ela usar naquela noite.
	Ento, por que parou de ler?
	Estou com os olhos ardendo  mentiu.
Charles sorriu, com ar insinuante.
	Acho que estou com mais sorte do que voc porque olh-la daqui no est me cansando a vista nem um pouco.
	Pensei que no gostasse de me ver com essas roupas insinuantes na vitrine  lembrou Jennifer.
	Mudei de ideia  respondeu ele, olhando para o decote da camisola.
Jennifer sempre achara que no tinha seios fartos e atraentes, como os de Delphine, por exemplo, mas Charles parecia no concordar com isso.
Aquele olhar provocante trouxe  sua mente uma nova onda de fantasias sensuais. Imaginou como seria fazer amor com ele, com seus corpos ardentes de desejo movendo-se em um ritmo cada vez mais frentico.
Quando deu por si, Charles e as pessoas a estavam olhando com expresses de curiosidade. Ela voltou  realidade no mesmo instante, tentando trazer a respirao a um ritmo normal.
	O que aconteceu?  indagou Charles.  Pareceu que sua mente estava longe daqui.
Jennifer deu de ombros, sem saber ao certo o que dizer.
	Oh, eu devaneio s vezes.
	Sobre o qu?
Ela deu de ombros novamente.
	Nada muito especfico  respondeu, evasiva.
Charles no pareceu acreditar muito naquilo, mas no insistiu no assunto.
Jennifer deu graas por isso. No deveria se deixar levar por fantasias erticas com Charles, ainda mais ali, na frente de todos.
Por outro lado, no havia nada demais em deixar que em sua imaginao vivesse aquilo queela no poderia ter na vida real. Fantasias eram bem mais seguras do que contatos reais, ainda mais no que dizia respeito a Charles Derring.
Charles ficou aliviado quando o relgio finalmente indicou dez horas. Tivera frustraes demais por um dia. Tentar no olhar para Jennifer vestida com aquela camisola branca e sensual fora uma verdadeira provao.
Naquele momento em que ela devaneara, ele seria capaz de fazer qualquer coisa para saber o que havia por trs do brilho de desejo daqueles lindos olhos verdes. Adoraria descobrir os segredos mais ntimos de Jennifer.
No entanto, se acontecesse algo entre eles, teria de ser com total consentimento por parte dela. Ele queria algo mtuo, nascido do desejo igualmente intenso entre um homem e uma mulher. Por isso, no poderia se precipitar.
Quando saiu da vitrine e despediu-se dos empregados, ficou surpreso ao ver seu pai entre eles. No esperava que o velho Jasper estivesse na loja at to tarde.
Depois de trocar algumas palavras com ele, enquanto as portas de ferro da loja eram abaixadas, notou que Jennifer continuava do lado de dentro da vitrine, parecendo procurar algo perdido pelo cho.
	O que voc est procurando?  perguntou a ela.
	Um dos brincos de brilhante que usei hoje. Lembro-me de haver sado com eles do vestirio, mas agora um deles simplesmente sumiu!  explicou, indicando a orelha esquerda, de onde o brinco havia desaparecido.
	Vou ajud-la a procur-lo  Charles se ofereceu, comeando a olhar o carpete.
Os dois vasculharam todo o local, mas nem sinal do brinco. Jennifer estava ficando cada vez mais preocupada.
	E se eu o perdi mesmo? E um brilhante verdadeiro!
No sei por que me fizeram usar um.
	A ideia foi minha  explicou Charles.  S os brilhantes verdadeiros refletem luz o suficiente para se destacarem em meio aos flashes. No se preocupe se o brinco no aparecer. A Derring Brothers se encarregar do prejuzo.
	Ainda assim, eu no deveria haver sido to descuidada  censurou-se Jennifer.  S percebi que estava sem o brinco h poucos minutos.
Mais meia hora se passou sem que eles encontrassem a jia.. Porm, quando Jennifer se abaixou para olhar mais uma vez embaixo da cama, Charles viu o brinco escorregar do decote dela e ir parar sobre o carpete.
Jennifer tambm notou o que acontecera e pegou o brinco no mesmo instante.
	Aqui est!  exclamou, aliviada.  Estava dentro do meu decote todo o tempo.
"Brinco sortudo", pensou Charles.
	timo. Agora no ter mais motivo para perder seu sono. J so quase onze horas. Acho melhor avisarmos que ainda estamos aqui, antes de nos trocarmos para voltar para casa.
Jennifer o seguiu em direo  sada, notando que a loja estava completamente vazia.
	H algum a?  perguntou Charles, em voz alta.
As luzes estavam acesas como sempre, por medida de segurana, mas as portas principais se encontravam todas trancadas.
Os dois se separaram e foram verificando cada uma das portas. Algum tempo depois, Jennifer veio correndo em direo a ele, fazendo a camisola e o robe esvoaarem atrs de si.
	No h ningum aqui, Charles!  exclamou, aflita.
  mesmo possvel que todos tenham ido embora? Ser que nos esqueceram?
Ele olhou em volta, passando a mo pelos cabelos.
	Tenho a impresso de que sim.
	Como sairemos daqui?
Charles mordeu o lbio, pensativo.
	Boa pergunta.
	Como assim?
	O pessoal da segurana tranca todas as portas e liga o alarme perimetral antes de sair. As portas no podem ser abertas a menos que voc tenha as chaves e saiba o cdigo do alarme.
Jennifer uniu as mos, parecendo nervosa.
	Voc tem uma chave?
	No.
	No tem uma chave de sua prpria loja?  ela se indignou.
	No comigo. Nunca fico aqui at to tarde e nem abro a loja pela manh. O pessoal da segurana  contratado justamente para cuidar disso. Com essa histria da vitrine e as constantes trocas de roupa, deixei todas minhas chaves e meus cartes de crdito em casa, para no correr o risco de perd-los.
	Est querendo dizer que no poderemos sair daqui?
	No. A menos que eu telefone para algum que possa nos ajudar.
Jennifer o olhou, mais esperanosa.
	Pode ligar para o chefe da segurana?
	Sim, ou para qualquer outro segurana  salientou Charles.  S que os nmeros esto no meu escritrio.
	Ora, ento vamos at l!
Ele respirou fundo.
	Meu escritrio tambm est trancado e a chave no est comigo.
	No h outro escritrio na loja?
Charles pensou por um momento.
	Vale a pena tentar  respondeu.  Os elevadores esto desligados. Terei de subir at l.
	Irei com voc.
	No  preciso.
	Eu prefiro  insistiu Jennifer.  Tenho medo de ficar aqui sozinha.
Charles segurou a mo dela.
	No estamos em perigo. Mas se quer vir, ento vamos.
Os dois subiram nove escadas rolantes que se encontravam paradas. O dcimo andar s era acessvel por meio de um elevador especial e eles tiveram de usar a escada de incndio.
Quando alcanaram a porta do escritrio de Charles, estavam mais do que ofegantes. De fato, ela estava trancada. Jennifer o seguiu, enquanto ele verificava a porta do escritrio do vice-presidente e a do secretrio financeiro, alm de outras. Todas trancadas.
Charles tambm tentou as salas das secretrias, mas no encontrou nada diferente.
	Fico contente em ver que seguem muito bem minhas ordens de manter tudo trancado  ironizou ele.  Parece que ningum esqueceu alguma chave ou algum nmero de telefone por aqui.
	No sabe nenhum deles de cor? - questionou Jennifer.
 J deve haver precisado ligar para seu vice-presidente alguma vez ou para algum outro empregado da loja.
Charles riu.
Esse  o preo que pagamos pela tecnologia moderna.
Meus telefones so programados para que eu apenas digite um nmero quando  preciso falar com algum. No sei nenhum telefone de cor, exceto o seu. Tive de procur-lo na lista porque meu telefone ainda no foi programado com ele.
	Oh, isso  de grande ajuda  ironizou Jennifer.
	Temos a opo de chamar a polcia ou o corpo de bombeiros  sugeriu Charles, com relutncia.  Eu no gostaria de ter de chegar a esse extremo, mas se no houver outra alternativa...
Jennifer pareceu preocupada.
	Mas isso causaria uma publicidade negativa.
	 mesmo. Eu no havia pensado nisso  confessou ele.  Por outro lado, talvez fosse exatamente o que deveramos fazer.
	Charles, ser possvel que voc s pensa em publicidade?  Jennifer se indignou.  Se as pessoas souberem que ficamos presos aqui, acharo que... Voc sabe muito bem o qu! A imprensa j est achando que existe algo entre ns por causa dos beijos que trocamos na vitrine.
Como pode sequer pensar em chamar a polcia?
	Estou apenas pensando em voc. Sei que quer sair daqui.
	Sim, mas no quero que todo o mundo pense que... que...
	Entendi o que est querendo dizer  afirmou Charles, desejando que Jennifer no considerasse a ideia to detestvel assim.
	Acha mesmo que seria uma boa publicidade para a Derring Brothers? - perguntou ela, como que sentindo que ele no estava convencido.  Essa  uma loja com tradio familiar, Charles. No seria bom para a imagem da empresa se o novo presidente fosse encontrado em uma situao escandalosa com uma de suas funcionrias. J chegamos muito perto disso com essa histria da vitrine.
	Chegamos?  Ele arqueou uma sobrancelha.
	Claro que sim. Olhe s para ns, vestidos com as roupas de dormir com as quais passamos boa parte da noite diante do pblico!
	Sim, mas mantivemos uma boa distncia um do outro.
	Mas  o que fica implcito que conta na cabea das pessoas, Charles!
	O pblico parece estar gostando, e a mdia no nos acusou de ter mau gosto.
	No ainda  salientou Jennifer.  Mas se descobrirem que passamos pelo menos uma hora juntos na loja, vestidos desse jeito, toda a publicidade que fizemos ir por gua abaixo.
	No concordo, mas no vou discutir  disse Charles. 
 Se no quer chamar a polcia, no chamaremos. No quero lhe causar nenhum embarao.
	Ento, o que faremos?
Charles ficou pensativo por um instante, mas a resposta logo surgiu em sua mente.
	Meu pai! Por que no pensei nisso antes? Posso ligar para a casa dele e pedir ajuda.
	Graas a Deus!  exclamou Jennifer, aliviada.
Charles foi at o telefone mais prximo e digitou o nmero. Aps dois toques, ouviu a voz de seu pai na secretria eletrnica. Desapontado, deixou o recado e pediu ao pai que tomasse alguma providncia assim que possvel.
	Ele no estava em casa?  perguntou Jennifer, quando ele desligou.
	No  respondeu Charles, olhando para o relgio. Minha me pode haver sado com ele para visitar a irm.
De qualquer maneira, eles j deveriam ter voltado a essa hora. Mas ele ligar logo, no se preocupe. Est com fome?
	Sim  admitiu Jennifer.
	Ento vamos descer e procurar algo no restaurante da loja. Poderemos trazer a comida para c enquanto es peramos pelo telefonema de meu pai.
Jennifer sorriu pela primeira vez, desde que encontrara o brinco.
	Boa ideia. Assim, tambm poderei trocar de roupa.
	Mas ter de descer at o primeiro andar para isso  avisou Charles.  Por que no espera para vestir sua roupa quando vierem nos buscar? Teremos de passar pelo primeiro andar antes de sairmos do prdio.
Jennifer pareceu relutante.
	Faz sentido  disse, por fim.  Eu deveria ter trocado de roupa logo depois das dez horas, mas estava to apavorada com a perda do brinco que nem me lembrei de faz-lo.
	Est com frio?
	Um pouco. Mas vou me sentir melhor depois de comermos algo.
Charles assentiu.
Trs andares abaixo, eles encontraram um bom suprimento de alimentos no restaurante da loja.
	No h problema em levarmos comida daqui?  perguntou Jennifer.
	Nenhum problema. Pode pegar o que quiser.  por minha conta.
Pegaram vrias guloseimas apetitosas e, por ltimo, Charles selecionou uma garrafa de champanhe.
	Quer levar mais "alguma coisa?  perguntou a ela.
	No, isso ser mais do que suficiente. O champanhe  mesmo necessrio?
	Far o tempo passar mais depressa.
	S espero que no estejamos bbados quando nos encontrarem.
	No vai demorar muito para sermos encontrados  garantiu Charles.  Agora acho melhor subirmos novamente para o andar executivo, para no perdermos o telefonema de meu pai.
Quando chegaram ao ltimo andar, colocaram os recipientes sobre a mesa de uma das secretrias e pegaram duas cadeiras.
A meia-noite, boa parte da comida j havia sido consumida, alm de metade do champanhe. A certa altura, Charles se deu conta de que estava at gostando da situao. Jennifer tambm parecia estar muito bem. Talvez fosse consequncia do champanhe, mas, de qualquer maneira, era bom que ela houvesse se adaptado to facilmente  situao.
Verificou o relgio mais uma vez.
	Por que ser que meu pai ainda no telefonou?
	Talvez seja melhor telefonar novamente. Ele j deve estar em casa agora.
Charles foi at o telefone e digitou o nmero. Foi atendido pela mensagem da secretria eletrnica mais uma vez.
	Isso  estranho  afirmou ele, franzindo o cenho.
	No deveria haver algum em casa a essa hora? inquiriu Jennifer.
	Sim. Talvez tenham desligado o aparelho. Eles tm um poodle sensvel a barulhos sbitos.
Jennifer se serviu de um pouco mais de champanhe.
	Ento ficaremos presos aqui a noite inteira.
	A menos que voc queira que eu chame a polcia  lembrou Charles.
	Nem pensar! J estamos aqui h duas horas. Os policiais se perguntaro o que estivemos fazendo durante todo esse tempo, antes de decidirmos entrar em contato com eles.
Charles voltou a se sentar.
- O que diremos a todos, quando nos descobrirem pela manh? No dizer nada ser muito pior.
	O pessoal da segurana no chega primeiro para abrir a loja?  perguntou Jennifer.
	Sim.
	E voc confia neles?
	Sim.
	Bem, ento basta explicar por que ficamos presos aqui e o motivo que nos impediu de telefonar para a polcia. Cite que dormimos em andares separados e jure que nada aconteceu.
	Acho isso meio exagerado  afirmou Charles, rindo.
	O caso Watergate no nos ensinou que tentar justificar uma situao pode criar um escndalo maior do que o que realmente aconteceu?
Jennifer deixou o champanhe de lado, parecendo preocupada.
	No sei o que dizer  confessou.  No fizemos nada indevido, mas aos olhos das pessoas a situao ser muito diferente.
	Deve haver alguma soluo...  disse Charles, pensativo.
J sei! Irei falar com o pessoal da segurana assim que eles chegarem, pela manh. Direi que me tranquei aqui por acidente. Ficar bvio porque minha barba estar crescida. Enquanto isso, voc poder escolher outra roupa, no departamento de roupas femininas, e trocar-se no toalete ou mesmo em algum local reservado do restaurante, j que ele no abre antes das onze horas da manh. Ento, quando o restaurante comear a ficar movimentado, voc poder entrar na loja como se houvesse acabado de chegar de casa. Quem iria desconfiar de que passamos a noite aqui? Jennifer pensou na sugesto e acabou assentindo.
	Acho que dar certo  disse a ele.  Mas o que faremos at l?
	Dormiremos  sugeriu Charles.  No juntos, claro. Encontraremos lugares separados para dormir. Poderemos ir ao departamento de mveis ou ao de cama e mesa, onde h vrias camas em exposio.
	Ok, mas primeiro vou tirar toda essa maquiagem. Por acaso h algum...?  Ela olhou em volta.
	O toalete feminino fica depois daquela escada  respondeu ele, indicando o local.
Quando Jennifer voltou, minutos depois, estava mais parecida com ela mesma. O rosto delicado e sem maquiagem revelava uma linda mulher de traos clssicos.
Charles ficou surpreso. Era estranho v-la daquela maneira natural depois de tantos dias com maquiagem.
	No pareo a mesma sem maquiagem, no ?  perguntou ela, notando o modo como ele a olhara.
	No. Mas eu prefiro assim.
	Prefere?  Jennifer arqueou as sobrancelhas.
	Se eu a beijasse agora, no ficaria manchado de batom  explicou ele.
Jennifer riu.
	Sim, mas voc no iria querer...  Ela no terminou a frase, parecendo arrependida do que comeara a falar.
Sem dizer nada, Charles se aproximou dela e tomou-a nos braos, beijando-a com ardor.
Para seu espanto, Jennifer se rendeu ao beijo de imediato. Ele a enlaou pela cintura, colando o quadril ao dela. Passara a noite inteira querendo fazer isso e a oportunidade estava sendo melhor do que ele imaginara.
Jennifer deve ter sentido a mudana em seu corpo, porque interrompeu o beijo e afastou-se de repente. Apesar da apreenso em seu semblante, Charles tambm no deixou de notar o brilho de sensualidade nos olhos verdes.
	No deveramos fazer isso  disse ela, ofegante.
	Por que no?
	Estamos sozinhos.
	Mais um motivo para podermos nos beijar com mais liberdade  justificou Charles , sem uma plateia para nos observar.
	Mas isso pode nos levar a... perder o controle.
	E que mal h nisso?
Jennifer o olhou como se ele houvesse ficado louco.
	Charles, voc  o dono da loja, e eu sou sua funcionria!
Ele desejou que ela no ficasse lembrando aquilo a todo momento.
	Eu sei. Mas se nos sentimos atrados um pelo outro, no h nada de errado em agirmos com liberdade. Nenhum de ns  casado ou comprometido de alguma maneira.
	Mas precisamos considerar as circunstncias. Pense no escndalo que seria se envolver com uma funcionria.
Charles a puxou novamente para si.
	Pois acho que deveramos esquecer esse detalhe e se guir nossos coraes.
	E o que isso significa?  indagou ela, num fio de voz.
	Que devemos nos conhecer melhor  respondeu ele, beijando-a mais uma vez.
	Charles, deveramos agir com mais responsabilidade.
Ele a fitou por um momento.
	Que mudana  essa afinal? No quer viver uma grande paixo, como Peter e Delphine?
Jennifer abaixou a vista.
	Acho que eu nunca conseguiria me entregar completamente a uma aventura passageira.
	Talvez seja bom tentar experimentar algo assim.
	Prefiro no me arriscar  disse ela, afastando-se.  Tenho certeza de que iria me arrepender depois.  Voltou a olh-lo.  Charles, sobre o que estamos falando exatamente? Est dizendo que gostaria de...?
	Fazer amor com voc  completou ele.
	 isso que quer?
	 o que mais quero h dias  confessou Charles.  V-la todos os dias com roupas elegantes e com camisolas provocantes no tem sido nada fcil. No imaginei que isso fosse acontecer, mas j que estamos aqui sozinhos... Achei que seria uma grande chance de t-la em meus braos.
Jennifer meneou a cabea.
	Mas seria algo artificial, Charles. Voc no me desejava antes de me ver transformada durante essa semana.
	Eu apenas no tinha ideia de quanto me sentia atrado por voc.
	No tinha ideia porque no se sentia atrado  insistiu Jennifer.  Se fizermos o que est sugerindo, ficar desapontado. No sou nem um pouco parecida com Delphine. Eu no... iria saber como... satisfaz-lo como ela ou qualquer outra de suas ex-namoradas.
	Voc  virgem?  indagou Charles, ao notar a ingenuidade de Jennifer.
	No. Tive um namorado na faculdade, antes de desistir do curso. Acho que no correspondi da maneira como ele esperava porque o namoro no durou nem uma semana depois daquele dia fatdico.
	Aposto que ele era do tipo que deixava as garotas logo depois de conseguir o que queria. No baseie o resto de sua vida amorosa nessa experincia frustrante, Jennifer.
	Talvez tenha razo, mas eu no gostaria de ter de passar por esse teste com voc. Seria embaraoso demais se voc ficasse desapontado.  Fitando-o nos olhos, perguntou:  Como iramos nos encarar depois? Eu seria uma mera funcionria que se envolveu com o presidente da em presa. No  assim que quero conduzir minha vida, Charles.
Ele assentiu, sem conseguir encontrar um bom argumento.
	Acho que  justamente essa sua sinceridade que a torna to atraente  disse a ela.  Seu semblante de classe e de respeitabilidade deve ter sido o fator que levou a equipe da loja a escolh-la como modelo da vitrine viva. Afinal,  essa a filosofia da Derring Brothers.  Aps uma breve pausa, falou:  Posso lhe fazer algumas perguntas?
	Sim.
	Disse que no queria passar por esse teste comigo. Mas aceitaria se fosse com Peter? Ou foi por isso que nunca dormiram juntos? Tambm evitou passar por esse teste com ele?
	Eu estava disposta a dormir com Peter, se ele quisesse. Mas foi ele quem no quis se envolver.
	Ento por que preferiria se envolver com ele e no comigo? Sentia-se mais atrada por aquele sujeito esquisito?
	No. Sinto mais atrao por voc  admitiu Jennifer.
	Est vendo? No entendo por que hesita tanto em seguir suas emoes.
	Estamos falando de sentimentos, Charles, no de emoes. Os sentimentos so mais nobres, e no dizem respeito aos nossos impulsos momentneos. O que acontecer amanh, se nos entregarmos um ao outro?
	Quem pode saber?  ele respondeu com outra pergunta.  Ser nosso segredo.
	Segredos acabam sempre sendo revelados  replicou Jennifer.  E mesmo que ningum descubra, ns saberemos o que aconteceu. Teremos de prosseguir com o relacionamento ou termin-lo de uma vez, antes que ele nos cause problemas e dificuldades. Provavelmente voc se interessar por outra garota, e como eu ficarei? No, Charles,  melhor continuarmos apenas como amigos.
- Amigos com um enorme desejo um pelo outro  salientou ele.  No podemos mais continuar sendo apenas amigos, Jennifer.
	Por qu?
	Porque meu desejo por voc aumenta a cada dia.
	Isso acabar passando  afirmou ela.  Quando conhecer outra garota como Delphine, logo esquecer que eu existo.
	Esse  o ponto principal da questo, Jennifer  disse Charles, segurando-a pelos ombros.  No quero mais algum como Delphine. Prefiro uma pessoa estvel, uma mulher que seja linda por dentro e por fora. Voc.
Jennifer balanou a cabea, incrdula.
	Duvido de que isso dure. No vamos mais falar sobre isso, Charles. No dar certo.
Ele assentiu. Jennifer tinha razo em certos aspectos. No seria sensato comear um romance com uma funcionria. Por outro lado, no conseguia deixar de desej-la. Ainda assim, respeitou a deciso que ela tomara.
	 melhor procurarmos um lugar para dormirmos sugeriu.  Voc disse algo sobre dormir em andares separados. O setor de cama e mesa fica no terceiro andar e o de mveis fica no oitavo. Acho que ser uma boa distncia.
	Seria a atitude mais sensata, mas acho que ficarei com medo. A loja vazia fica meio fantasmagrica.
	Ok, ento dormiremos em camas separadas, no oitavo andar.
	H duas camas expostas no terceiro andar, mostrando novos modelos de travesseiros e de colches  salientou Jennifer.  Pareceram muito confortveis quando as vi, e esto separadas pelo local onde ficam os caixas.
	 uma boa ideia  anuiu Charles.  Vamos levar o que sobrou da comida. Talvez algum de ns precise se alimentar no meio da noite, se no conseguir dormir.
	Ok.
Quando chegaram ao terceiro andar, Jennifer sentou-se no primeiro colcho, para test-lo.
	Ficarei aqui, se no se importar  disse a Charles.
	Por mim, tudo bem.  Deixando o restante da comida sobre o balco do caixa, acrescentou:  Acho que vou servir mais um pouco de champanhe. Talvez a bebida nos ajude a dormir.
	No, obrigada  respondeu Jennifer.  Prefiro adormecer naturalmente;  Passando a mo no travesseiro, continuou:  Sempre achei essa cama to convidativa, mas nunca pensei que um dia fosse experiment-la.
Charles tomou um pouco de champanhe e sentou-se ao lado dela.
	Fico contente que pelo menos uma de suas fantasias possa ser realizada  insinuou.  Desculpe-me  disse, ao notar o embarao de Jennifer.  Eu no deveria ter
trazido esse assunto  tona novamente.
	Oh, Charles...
	O que foi?  Ele tomou a mo dela.  No tive inteno de aborrec-la.
	Acho que estou agindo feito uma solteirona insensvel, no?
	Est agindo com sensatez  corrigiu ele.
Jennifer suspirou, mas acabou explodindo em lgrimas.
	Por que est chorando?  perguntou Charles, confuso.
	Parece que nunca consigo o que quero quando ajo com sensatez. Estou ficando mais velha e...
	Jennifer, voc tem apenas vinte e seis anos. Ainda ter muitas oportunidades de escolha na vida.
	Pode ser, mas logo farei trinta anos e nada de importante aconteceu na minha vida. Sa da faculdade antes de termin-la e nunca tive certeza do que queria na vida. Perdi Peter e no terei um romance com voc  falou, em meio a soluos.
	Ei, voc s far trinta anos daqui a quatro anos!
	Sim, mas quatro anos passam muito rpido.
Charles comeou a entender o que estava acontecendo.
	Acha que tomou mais champanhe do que est acostumada?  perguntou a ela.
	No sei. Mas que diferena isso faz?
	Est cansada e precisa dormir um pouco. Irei para a outra cama, Ok? No se preocupe porque estarei bem ali.
Jennifer o fitou com uma sombra de tristeza no olhar. Charles no soube ao certo o que fazer.
	Acha que ficar bem aqui?
	Voc tambm vai me deixar  protestou ela.
	Mas foi isso o que combinamos  lembrou ele.  No era o que voc queria?
Jennifer assentiu.
	Sim. Voc ir embora e nosso breve romance estar terminado.
	Mudou de ideia?  arriscou Charles.
	No!
	Bem, ento s nos resta dormir  afirmou ele, ficando de p.  Boa noite e durma bem.
Dizendo isso, beijou-a na testa no mesmo instante em que uma lgrima rolou pelo rosto de Jennifer.
	Sou to sensata que nada de excitante acontecer na minha vida, simplesmente porque no vou permitir  lamentou ela, ainda afetada pelo efeito da bebida.  Vivo de fantasias e at mesmo elas nem sempre se realizam.
Charles comeou a entender aonde Jennifer estava querendo chegar. Ela queria ajuda para superar as prprias inibies.
Seu cansao desapareceu de um momento para o outro, tornando-o mais alerta. Olhou para cima, de modo casual, e viu uma cmera de segurana apontada na direo em que eles estavam. Sabia que a lente abrangia um grande ngulo, filmando quase tudo do departamento. Tambm havia cmeras em outros lugares estratgicos, captando tudo que acontecia no prdio de dia ou  noite.
Droga, por que no pensara naquilo antes?, Charles se recriminou. A certeza de que ningum descobriria que os dois haviam passado a noite ali foi simplesmente por gua abaixo. Como diria a Jennifer que esquecera esse detalhe sobre o sistema de segurana? Teria de tomar alguma providncia depois, mas esse no era o melhor momento para tocar em tal assunto.
De qualquer modo, precisaria dar um jeito naquela cmera, em especfico. A certa altura, quando Jennifer escondeu o rosto no travesseiro, para tentar conter as lgrimas, ele pegou uma torrada com pat que sobrara da comida e jogou-a na direo da lente da cmera.
"Bingo!", comemorou em pensamento, quando o pat fez a torrada ficar grudada na lente da cmera. Movendo-se devagar, voltou a sentar-se ao lado de Jennifer.
	Ainda no me dissuadiu completamente  disse a ela.  Quero muito t-la em meus braos. Basta apenas que voc se entregue ao desejo, deixando que ele a conduza.
Jennifer o fitou em silncio. Com gentileza, Charles a fez deitar sobre o travesseiro macio e inclinou-se, at seus lbios encontrarem os dela.
A princpio, Jennifer se rendeu ao beijo, porm, logo tentou afast-lo.
	No podemos, Charles.
	Claro que podemos...  Ele beijou-a no pescoo.
	Mas o que acontecer amanh?
	Deixemos para pensar nisso quando o momento
certo chegar.
Quando ele voltou a beij-la, Jennifer no conseguiu mais resistir. Inconscientemente, sabia que sua vida mudaria a partir daquele momento.

CAPITULO VII

Jennifer ainda pensou em se afastar uma ltima vez, mas desistiu ao sentir a mo de Charles sobre um de seus seios.
Ele a beijou com ardor, sem deixar de acarici-la, enquanto ela correspondia ao beijo com a mesma intensidade. No demorou muito para Jennifer sentir os seios nus e expostos s deliciosas carcias dos lbios quentes de Charles.
	Voc  linda, Jennifer  sussurrou ele, olhando-a com ar de adorao.
Quando voltaram a se beijar, ela comeou a abrir os botes do pijama dele. Charles logo se livrou da pea e deitou sobre Jennifer, tocando os seios dela com seu peito nu. Jennifer suspirou de puro prazer.
Deslizando as mos pelas costas dele, foi descendo devagar, at tocar-lhe as ndegas firmes. Sorriu com satisfao, ao ouvir o breve gemido de Charles.
	Jennifer, no aguentarei esperar muito...  avisou ele, ardendo de desejo.
Ela tambm o queria mais do que tudo naquele momento. O receio de desapont-lo fez com que fosse ousada pela primeira vez na vida. Insinuou seu quadril sob o dele, indicando quanto o desejava.
	No temos nenhuma proteo  lembrou Charles, de repente.  Voc quer arriscar? Eu estou disposto, mas...
	Tenho dois preservativos na bolsa  avisou Jennifer, ofegante.  Quando eu estava saindo com Peter, comecei a carreg-los comigo para o caso de... Bem, mas nunca foi preciso us-lo.
	No sabe quanto fico feliz por isso  afirmou Charles, com um sorriso.
Pouco depois, quando ele finalmente ficou pronto para possu-la, Jennifer conteve o flego, com um ar de expectativa.
	No est pensando em desistir, est?  perguntou Charles.
	No.
Seguro de que ela ainda o queria, Charles tomou-a para si. Jennifer o recebeu com um gemido, mal contendo a satisfao de sentir-se completa afinal.
O ritmo de seus corpos foi se tornando cada vez mais intenso, at que uma verdadeira exploso de sensaes pra-zerosas arrebatou-os a lugares onde os dois nunca haviam estado juntos antes. A partir daquele momento, suas vidas nunca mais seriam as mesmas, pois o mundo dos amantes finalmente se revelara para ambos.
Permaneceram abraados durante um longo tempo, enquanto seus coraes voltavam a um ritmo normal. Jennifer nunca sentira-se to feliz em toda sua vida. At esse dia, no conhecia o que era experimentar tamanho xtase nos braos de um homem. Pela primeira vez, sentia-se realmente livre.
Charles deitou de lado e olhou-a com um sorriso charmoso.
	Se eu soubesse que seria to maravilhoso assim, teria tentado conquist-la h meses  confessou. Deslizando a mo pelos seios de Jennifer, acrescentou:  Voc  ainda mais linda do que imaginei.
Ela sorriu, sentindo-se realmente sexy sob o olhar de Charles.
	Foi como se j houvssemos nos amado muitas vezes antes  disse.
	Fizemos isso em nossas mentes  lembrou ele.  Mas pessoalmente  muito melhor.
	Sim.  Jennifer sorriu.  Estou mais do que convencida disso.  Ela o beijou no peito.  Voc me fez muito feliz, Charles. Ensinou-me coisas que eu no sabia, por isso lhe devo...
Ele a interrompeu com um beijo. Quando o desejo se reacendeu em seu corpo, afastou-se um pouco, mantendo os lbios a centmetros dos dela.
Jennifer pegou o preservativo que restara e colocou-o na mo de Charles.
	Ainda resta um  sussurrou.  Ser suficiente para demonstrar minha gratido?
	Est ficando mais provocante a cada minuto  afirmou ele.  Esta  a verdadeira Jennifer que voc estava ocultando todo o tempo?
	Acho que sim.  Ela sorriu.  Eu mesma estou tendo de me acostumar com essa nova personalidade.
Um beijo iniciou uma nova entrega ainda mais ardente do que a anterior. Quando finalmente adormeceram, boa parte da noite j havia se passado.
Jennifer acordou de repente, sobressaltando-se ao notar que estava nua nos braos de Charles. Mais embaraoso ainda foi se ver assim em meio a uma loja de departamentos.
Charles continuava adormecido, com os cabelos loiros levemente desalinhados e o semblante vulnervel, semelhante ao de um menino.
Olhando o corpo msculo, lembrou-se da intimidade que haviam compartilhado. Fazer amor sob o efeito de champanhe e de circunstncias inesperadas fora uma experincia muito excitante. E dali em diante? Ser que tudo mudaria? Como Charles se sentiria a seu respeito quando acordasse e se visse com ela, na cama?
De sbito, uma certeza se apoderou de seu corao: amava Charles. No sabia h quanto tempo o sentimento existia, porm ele estava ali, mais forte do que nunca.
No entanto, sabia que eram muito diferentes do ponto de vista social. Charles era um empresrio bem-sucedido e ela uma simples funcionria da loja do pai dele. Talvez ele nem se importasse mais com ela quando acordasse.
Eles eram diferentes, e no havia como negar isso. Como seria possvel haver um relacionamento permanente entre eles? Aquela histria de manequim vivo sara do controle e uma nica noite de amor era tudo que provavelmente lhe restaria.
De repente, Charles abriu os olhos. Jennifer conteve o flego, esperando ver uma expresso de choque no rosto dele. No entanto, ficou surpresa quando um sorriso sonolento curvou os lbios de Charles.
	J amanheceu?  perguntou ele.
	Acho que sim. No meu relgio so seis e meia.
Charles olhou para o prprio relgio.
	Pelo menos acordamos antes da chegada dos seguranas  afirmou.  Como est se sentindo?
	Bem. No dormi direito, mas recuperarei o sono depois.
	Voc est maravilhosa  elogiou Charles.  A falta de sono pelo motivo que nos levou a isso combina com voc.
Jennifer sorriu.
	Eu desistiria de dormir na primeira oportunidade, para repetir o que fizemos.
Um brilho insinuante surgiu nos olhos de Charles.
	Ento no est arrependida?
	No. Voc est?
	No!  respondeu Charles.
	Eu deveria estar embaraada, mas no estou.
	timo  disse ele, tomando-lhe a mo.  No quero que tenha nenhum arrependimento. De qualquer maneira, precisamos pensar no que diremos quando as pessoas descobrirem que passamos a noite inteira trancados aqui.
Jennifer franziu o cenho.
	Mas voc j pensou nisso ontem  noite  lembrou.  Selecionarei outra roupa no departamento feminino e...
Charles hesitou um instante e meneou a cabea.
	Eu me dei conta de que esse plano no dar certo. Esqueci-me de que h cmeras em todos os setores da loja. Com certeza fomos filmados enquanto andvamos pelos outros andares. Portanto, acho que no adiantar dizer que voc no esteve aqui. Os vdeos mostraro o contrrio.
Uma onda de pnico se apoderou de Jennifer. Ouvira falar sobre o novo sistema de segurana da loja, mas no
sabia que as cmeras j estavam funcionando. Deus, por que no pensara naquilo?
	Oh, meu Deus!  exclamou, olhando em torno de si. 	No h nenhuma cmera por aqui, no ?
Charles sentou-se na cama e a fez olhar para ele.
	O que aconteceu entre ns no foi filmado, Jennifer. Pode acreditar em mim. Mas talvez tenhamos de seguir o plano original e contar a verdade ao chefe da segurana, tomando o cuidado de pedir segredo a ele. Mandarei que ele destrua todas as fitas de ontem  noite, para que no reste nenhuma evidncia. Enquanto isso, aproveite para se trocar e aparea para o trabalho normalmente. Usaremos os dois planos ao mesmo tempo.
	Como sabe que no fomos filmados na cama?  indagou Jennifer.
Ele a segurou pelos ombros, tentando tranquiliz-la.
	Sou o presidente da empresa, no sou? Acha que eu no saberia como funcionam as cmeras de segurana?
	Voc esqueceu at que a loja tinha cmeras  retrucou Jennifer.
	Sei que foi idiotice da minha parte  admitiu Charles. 	Acho que o champanhe e o fato de t-la em meus braos me deixaram entontecido. Mas estou tranquilo e muito sbrio agora. Confie em mim, Ok?
	Ok  respondeu Jennifer, com certa hesitao.
Escolheu um tailleur azul e outros acessrios na seo de roupas femininas. Em seguida, foi ao toalete executivo, onde havia um chuveiro disponvel.
Depois de se arrumar, aplicou algumas gotas de perfume e desceu para o primeiro andar. Guardou a roupa anterior em uma sacola com o emblema da Derring Brothers e deixou-a em seu armrio, para lev-la para casa depois.
O sr. James e Christine a cumprimentaram com a mesma animao de todos os dias. Depois de ser maquiada e penteada, Jennifer foi direto ao encontro de Charles. Queria saber o que ele havia conseguido com o chefe da segurana. Um dos assistentes dele disse que o vira a caminho do escritrio. Jennifer pegou o elevador e foi ao encontro dele.
Encontrou-o no escritrio de Herb Anderson, o homem de meia-idade que chefiava a segurana da loja. Ela parou um instante do lado de fora da porta, receosa de atrapalhar a conversa.
Ficou indignada ao ouvir os dois trocarem um riso de cumplicidade, antes de Herb entregar uma fita de vdeo a Charles. Deviam estar se divertindo a sua custa!, pensou, furiosa.
	Encontrei a fita que me pediu  disse Herb.
	Obrigado  Charles agradeceu.  Manter nossa conversa em segredo?
	Pode apostar que sim, sr. Derring  afirmou o segurana.  No quero ver o senhor nem seu pai com problemas. Sempre tive muito respeito por vocs. Ainda bem que cheguei cedo essa manh, antes que outra pessoa pudesse verificar as fitas.
	Sim, foi muita sorte  anuiu Charles.  Obrigado, Herb. Cuidarei para que receba um bnus extra nesse Natal.
Herb sorriu, satisfeito. Os dois trocaram um aperto de mos e o segurana deixou a sala. De costas para ela, Charles comeou a falar ao telefone antes mesmo de Jennifer entrar no escritrio. Mais uma vez, ela se manteve do lado de fora, esperando o momento em que pudesse conversar com ele.
	Aqui  Charles Derring. Preciso falar com vocs durante o intervalo da sesso de vitrine esta manh. Tenho uma tima ideia publicitria e quero que vocs a analisem. Se der certo, dessa vez conseguiremos chocar a imprensa e at conseguir um horrio na tev. Podemos nos encontrar? timo, ento at mais tarde.
Quando Charles desligou, Jennifer se perguntou que ideia seria aquela e o que teria a ver com a fita. Ele lhe garantira que no havia nenhuma cmera prxima  cama onde haviam ficado juntos.
Sentiu um aperto no estmago. Em vez de entrar no escritrio, saiu em silncio e foi at o terceiro andar. Quando se aproximou da cama onde ela e Charles haviam passado a noite, olhou em volta,  procura de alguma cmera.
Qual no foi seu espanto ao ver um funcionrio da empresa limpando uma cmera apontada na direo da cama! Charles mentira ao dizer que no haviam sido filmados!
E, como se no bastasse, ele iria se aproveitar da fita para obter publicidade! Teria Charles planejado tudo aquilo de propsito? Deus, era monstruoso demais...
Tomada por uma onda de nusea, sentou-se na cama por um momento. Lembrando-se da facilidade com que se entregara a Charles, sentiu os olhos se enchendo de lgrimas. Como pudera haver sido to idiota?
Furiosa, desceu at o trreo e dirigiu-se  vitrine, onde Charles provavelmente deveria estar. Teria de det-lo antes que ele colocasse em prtica aquele plano maldoso.
Ao entrar na vitrine que mostrava a cozinha, notou que ele ainda no havia chegado. Do lado de fora, algumas pessoas j se encontravam reunidas, esperando por alguma novidade. Jennifer retribuiu os acenos sem muito entusiasmo.
Encontrou uma folha com instrues sobre a mesa. Depois de l-la, pegou ovos, queijo, tomates e pimentas verdes, que seriam usados na preparao de uma omelete.
Enquanto manuseava os ingredientes, no conseguia parar de pensar no que acontecera. Como Charles tivera coragem de fazer aquilo com ela? E como ela conseguira ser to idiota a ponto de fazer amor com ele?
Havia acabado de quebrar um ovo quando ele entrou na cozinha.
	Otimo, pelo menos um de ns chegou pontualmente  disse, em um tom de voz animado.  Tive de dar alguns telefonemas antes de vir para c.
Jennifer se virou para ele, com o ovo na mo.
	Maldito!
	Hum?
	Como teve coragem?  bradou ela, jogando o ovo nele.
Charles se desviou a tempo de no ser atingido, mas arregalou os olhos, estupefato.
	O que aconteceu?
	Disse que no havia nenhuma cmera nos filmando ontem  noite!
	E no havia mesmo  confirmou ele.
Ao ouvir aquilo, Jennifer atirou outro ovo nele. Charles conseguiu se livrar novamente.
	Fui at l ainda h pouco  afirmou ela.  E vi um homem limpando uma cmera apontada bem para a cama!
A expresso de Charles mudou de repente.
	Joguei uma torrada com pat na direo da lente  explicou.  Por isso o funcionrio a estava limpando.
	Jogou uma torrada na lente?  perguntou Jennifer, incrdula. 
	Sim  afirmou Charles. - Fiz isso enquanto voc no estava olhando. Sempre fui bom de mira  brincou.
	Ento, o que havia na fita que Herb lhe entregou? questionou ela.
	Como sabe disso?
	Fui falar com voc, mas encontrei vocs dois no escritrio. Riram com ironia, antes de ele lhe entregar uma fita. Depois voc falou ao telefone que tinha uma nova ideia publicitria. Como explica isso?
Charles enrijeceu o maxilar.
	Jennifer, deixe-me explicar...
	Explicar o qu?  bradou ela.  Que me seduziu na frente de uma cmera para se aproveitar das imagens como meio de publicidade? Ser possvel que no consegue pensar em outra coisa? Como pde me humilhar dessa maneira?
	Jogou outro ovo nele.
Dessa vez, Charles conseguiu peg-lo, sem que se quebrasse contra a parede do fundo.
	Jennifer, quer me ouvir, por favor? Abaixe esse tomate! 	gritou.  Quando falei com Herb, a primeira coisa que ele me contou foi que meu pai havia desligado as cmeras de segurana, ontem  noite, antes de mandar todos para casa. Herb perguntou se eu sabia disso, e eu disse que no. Expliquei que havamos ficado presos na loja, e Herb falou que imaginava como tudo deveria ter acontecido.
	E por que o sr. Derring faria isso?  indagou ela, confusa.
	No tenho a mnima ideia. Francamente, eu e Herb observamos que meu pai anda agindo de um modo estranho ultimamente. Por isso, pedi segredo a ele. No quero que comecem a comentar por a que meu pai no anda muito bom do juzo.
	Oh. Ento, as cmeras estavam todas desligadas?
	Sim. Contei a Herb que havia ficado preso na loja, mas nem mencionei seu nome.   -
	Ento, por que pediu a fita?
	Porque queria ter certeza de que aquela cmera no havia filmado nada.
Jennifer no teve certeza se deveria mesmo acreditar nele.
	E quanto  tal "ideia publicitria"? Ouvi quando falou com sua equipe ao telefone.
	Oh,  uma ideia promocional que tive para o ms de maio. No tem nada a ver com a fita. Pensei em algo ontem e quero que o pessoal comece logo a desenvolver o projeto.
 Ao notar o olhar ainda desconfiado de Jennifer, acrescentou:  Fique com a fita que Herb me entregou. Eu a trouxe justamente para entreg-la a voc. Quero que a veja em casa essa noite, para ter certeza de que nada foi gravado.
	E como saberei que voc no a trocou?
Charles pareceu furioso.
	No troquei a fita, droga! Que tipo de homem acha que sou afinal?
	A vitrine viva foi ideia sua, assim como os beijos que aumentariam a publicidade. No duvido de que tenha pensado em algo parecido ou at mais diablico.
	Quando tive a ideia da vitrine, no sabia que ns acabaramos sendo os modelos. Imaginei que seriam pessoas desconhecidas. Foi meu pai quem...  Charles se interrompeu de repente.  Ei, pensando bem, acho que meu pai anda tendo mais influncia nessa histria do que estamos
percebendo.
Jennifer se viu obrigada a concordar com ele. Algo lhe dizia que fora o sr. Derring quem os escolhera para ficarem juntos na vitrine. Como se no bastasse, ele tambm os deixara trancados na loja na noite anterior, tomando o cuidado de desligar.as cmeras.
S ento Jennifer se lembrou de que tivera a impresso de t-lo visto do lado de fora da vitrine na noite anterior.
Acha mesmo que seu pai est tentando nos unir, Charles?
	E bem provvel.
	E por que ele escolheria logo a mim? Sei que ele gosta de mim, mas no perteno a nenhuma famlia tradicional nem tenho estudo superior. No sou da mesma classe social que vocs.
Charles sorriu com charme.
	Terei de perguntar tudo isso a ele quando o vir. Enquanto isso, porm, acredita quando digo que no fomos filmados?
Jennifer hesitou, mas acabou assentindo. Por algum motivo, a ateno de Charles se voltou para o lado de fora da vitrine. Ela olhou na mesma direo e avistou algumas pessoas posicionadas com mquinas fotogrficas, gritando algo para eles.
	Joguem mais ovos!
Jennifer finalmente entendeu a frase.
	Agora querem que atiremos ovos um no outro, em vez de nos beijarmos  ironizou Charles.
	Aposto que ser a manchete principal do noticirio dessa noite  falou Jennifer, com um suspiro.  Ficarei feliz quando tudo isso terminar  desabafou.
Queria voltar  sua vida normal. Estava cansada de ser quase uma celebridade.
	Lamento que no esteja mais se divertindo com isso  disse Charles.
	No incio at gostei, mas meus quinze minutos de glria esto ficando longos demais. Gostaria de voltar a trabalhar normalmente no setor de eletrodomsticos.
	Longe de mim,  o que voc quer dizer?
Jennifer hesitou, mas acabou assentindo.
	O que aconteceu ontem foi um erro, Charles. Tive receio de que tudo parecesse diferente  luz do dia, e foi o que ocorreu. Eu estava at atirando ovos em voc, minutos atrs! Aquilo foi apenas um mal-entendido que j foi solucionado  argumentou ele.  Por que querer acabar com tudo assim?
		Porque j est acabado. A magia se foi, ser que no entende?  perguntou, explodindo em lgrimas.
Sabia que estava realmente apaixonada, embora no tivesse inteno de admitir isso para Charles nem para nenhuma outra pessoa.
Mesmo que o pai dele estivesse bancando o cupido, e com certo sucesso, ela tinha noo de que seu romance com Charles no passaria de uma aventura passageira. Ele parecia mais preocupado em pensar na prxima campanha publicitria do que no relacionamento dos dois. A noite que haviam passado juntos fora apenas mais um encontro amoroso na vida dele, nada mais.
Tratou-o com frieza durante o resto do dia. Precisava se manter a distncia, para seu prprio bem, pensou.
A noite, quando estava vestindo a camisola com a qual iria para a vitrine, uma colega lhe entregou um jornal. Logo na primeira pgina havia uma foto do momento em que ela atirara um ovo em Charles. "Amantes da vitrine declaram guerra", dizia a manchete sensacionalista.
Ao se encaminhar para o ltimo turno da noite, trajando a camisola de cetim preto e um robe, encontrou Charles no corredor, prestes a entrar na vitrine. Mostrou o jornal a ele.
	"Amantes da vitrine"  repetiu Charles.  Como eles sabem...?
Jennifer estreitou os olhos.
	S se voc contou a algum jornalista...
	No  disse ele, de imediato.  Por que eu faria isso? Ningum sabe a nosso respeito. Esse foi apenas um truque sensacionalista.  Tirando uma fita de vdeo do grande bolso do robe, ele acrescentou:  Fique com isso. Assista em sua casa, logo mais, para ter certeza de que falei a verdade.
	No precisa se preocupar, Charles. Acredito em voc.
	Quero que assista mesmo assim  insistiu ele.
Ela pegou a fita, com certa relutncia. Ficou sentada na cama, lendo, durante o resto do expediente. Dessa vez, porm, tomara o cuidado de selecionar livros sobre pesquisas e fico cientfica. Nem pensar em romances!
Ao fim do dia seguinte, o ltimo em que ficariam na vitrine, no existiria mais nada entre eles. Charles voltaria a ser o presidente da empresa, e ela uma simples funcionria sem importncia.
Quando chegou em casa, por volta das dez e meia da noite, Jennifer colocou no videocassete a fita que ele lhe entregara. Pensou que ela estaria em branco, mas qual no foi sua surpresa ao se deparar com o rosto de Charles.

CAPITULO VIII

	Ol, Jennifer  disse ele, na tela da tev.
Estava vestido com a mesma roupa que usara durante o dia na loja.
	Sei que pensou que esta fita estaria em branco, e est mesmo, depois do meu recado. Herb providenciou para que eu pudesse gravar essa mensagem utilizando o equipamento de segurana. No tenho muito tempo, portanto, serei breve.
Jennifer sentou-se no sof, sem desviar a vista da tev. Charles abaixou a cabea por um momento, antes de voltar a falar.
	Voc se manteve distante desde o incidente dos ovos. Eu no soube como me dirigir a voc, por isso resolvi faz-lo desta maneira. A respeito de ontem  noite, quero que saiba que para mim aquilo tudo foi muito especial, e no um erro. Discordo que a magia tenha terminado. No planejei ficar trancado na loja com voc com o intuito de me aproveitar disso. Sinto muito pelo incidente da cmera. De qualquer maneira, reconheo que no deveria ter me aproveitado da oportunidade, mas  que eu a queria tanto que...  Ele engoliu em seco.  Bem, acho que no h desculpa para isso. Mas em nenhum momento eu quis lhe causar algum embarao. Eu a respeito muito, Jennifer. Pode at parecer que no, com todas minhas brincadeiras e provocaes, mas sempre a considerei uma mulher especial.
Ele respirou fundo e olhou para o relgio.
	Preciso voltar para a vitrine. Creio que isso  tudo o que eu tinha para lhe dizer. Espero que me perdoe, se estiver brava comigo. No sei por que me tratou com frieza, mas tenho esperana de manter pelo menos nossa amizade. Fale comigo amanh, sim?
A imagem desapareceu logo em seguida. Jennifer voltou a fita e assistiu ao recado mais uma vez, e depois outra.
Claro que perdoara Charles. Todavia, o que ele quisera dizer ao afirmar que sempre a achara especial e que desejava pelo menos manter a amizade entre ambos? Como ele poderia sugerir apenas amizade depois daquela noite de paixo? Talvez ele conseguisse, mas ela prpria sabia que no iria ser capaz de consider-lo apenas como amigo dali em diante.
Eram ex-amantes. Por que no dizer as palavras cor-retas de uma vez? Falaria com Charles no dia seguinte, como ele pedira, mas tambm seria muito sincera sobre o relacionamento.
Charles sentiu-se pouco  vontade na manh seguinte. A primeira notcia que recebeu ao chegar  loja foi de que havia um canal de tev querendo gravar uma entrevista com ele e com Jennifer. O compromisso estava marcado para o meio da manh e, pelo visto, queriam film-los na vitrine.
Para seu maior aborrecimento, ainda no havia conseguido falar com seu pai, a respeito do motivo que o fizera desligar o equipamento de vdeo da loja naquela noite. Certamente, o velho Jasper Derring estava evitando falar com ele.
Como se no bastasse, tambm estava preocupado com Jennifer. No tinha ideia de qual seria a reao dela ao ver a fita. Avisaram-no de que ela j havia chegado e que se encontrava na sala de maquiagem. Esperaria para falar com ela quando estivessem na vitrine. Pelo menos assim ningum os ouviria.
Depois de se vestir, foi para a cozinha improvisada. Acenou ao ser saudado por aplausos vindos das pessoas que j se aglomeravam diante da vitrine. Ao ler as instrues do dia sobre a mesa, deu graas por no haver ovos no menu.
Minutos depois, Jennifer apareceu. Estava linda, trajando uma cala branca larga e uma espcie de tnica azul-clara. Ela hesitou por um instante, mas acabou se aproximando dele ao dizer:
	Assisti  fita. Obrigada pela considerao e por tudo que disse. A discusso de ontem tambm foi culpa minha. Tirei concluses precipitadas, sem querer ouvir suas explicaes. Lamento por isso.
	Ora, no h o que lamentar, exceto o fato de no havermos nos entendido  respondeu Charles, aliviado por ela estar tratando-o como antes.
	Tem razo - anuiu Jennifer.  Mas no consigo v-lo mais apenas como um amigo. Somos ex-amantes, Charles. No podemos fingir que nada aconteceu.
Ele franziu o cenho, confuso. Por que ela se referira a eles como ex-amantes? Quem colocara um fim no romance dos dois? Pelo visto, a prpria Jennifer, concluiu.
Charles sentiu-se perdido por um momento. Ela no o queria mais.
	Ento, o que acontecer de agora em diante?  perguntou ele.
Jennifer deu de ombros.
	No sei. Isso depende mais de voc do que de mim. Afinal, voc  o presidente da empresa. Sou apenas uma funcionria.
	No me venha com essa histria!  Charles se impacientou.  Por que est sempre insistindo em deturpar a situao? Na minha opinio, somos dois adultos que se sentem atrados um pelo outro.
Jennifer pareceu desconcertada por um instante.
	Ok, mas o que acha que dever haver entre ns de agora em diante?
	Foi exatamente o que lhe perguntei!
Charles reconheceu um brilho de lgrimas nos olhos de Jennifer.
	No sei o que acontecer conosco  admitiu ela.  Nunca passei por isso antes. Voc j terminou vrios relacionamentos e tem muito mais experincia do que eu nesse assunto.
	Por que est falando em terminar?  perguntou ele, em um tom de voz mais gentil.
Jennifer pestanejou, contendo as lgrimas.
	Bem, que outra escolha nos resta? Quer que continuemos dormindo juntos? As pessoas acabariam descobrindo nosso romance, e isso complicaria a situao. Seramos alvo de fofocas a cada intervalo para refeio da loja. Alm disso, poderia prejudicar sua autoridade perante os funcionrios. Se pensarmos com sensatez, veremos que isso no dar certo, Charles.
No que dizia respeito a Jennifer, o bom senso de Charles no parecia surtir muito efeito. De qualquer maneira, reconhecia que ela tinha razo. No queria v-la se tornar alvo de fofocas maldosas.
	Ento, acho que terei de despedi-la  declarou, com ironia.
	Talvez eu devesse pedir a conta - sugeriu ela.
	Jennifer...
	Ser a melhor soluo. Assim, voltarei para a faculdade e conseguirei obter meu diploma.
Charles no gostou de ouvir aquilo.
	No me diga que tem esperana de reconquistar seu professor?
	No  respondeu ela.  Eu apenas... preciso ficar longe de voc. 
	Por qu? Arruinei sua vida tanto assim?
	Voc a modificou  explicou Jennifer, forando um sorriso.  Nunca esquecerei minha noite de amor com voc. Talvez seja a nica lembrana boa que guardarei comigo. Mas preciso voltar  minha vida normal, e no creio que conseguirei fazer isso se continuar por aqui.
Charles ficou arrasado. Percebeu que Jennifer sentia algo por ele, mas que ela teria de se manter longe para o prprio bem. No soube o que pensar, e muito menos o que dizer. Nunca fora deixado por uma mulher por quem estava prestes a se apaixonar. Ou j estaria apaixonado?, perguntou-se, confuso.
Um funcionrio da loja bateu na porta de trs, avisando que a equipe de tev j havia chegado.
	Equipe de tev?  perguntou Jennifer.
	Desculpe-me, esqueci de avis-la. O reprter de um canal local quer nos entrevistar.
	Oh, no...  Jennifer gemeu.
	Pode deixar as respostas por minha conta  Charles a tranquilizou.
	Com certeza vieram por causa do sensacionalismo sobre um possvel romance entre ns  deduziu Jennifer.  Como conseguiremos fingir?
Charles no soube o que responder. Ele no teria de fingir estar apaixonado, mas, pelo visto, ela teria.
	Encontraremos uma soluo  disse, por fim.
A equipe de tev comeou a montar o equipamento, chamando ainda mais a ateno das pessoas. Finalmente, quando Charles, Jennifer e Mike Holburn sentaram-se  mesa, a entrevista teve incio.
	Vocs estiveram nos principais jornais durante toda a semana  comeou ele.  Qual  a sensao de ser observado por tantas pessoas durante dias?
	Senti-me como um peixe em um aqurio  brincou Charles.  Felizmente, um aqurio bastante luxuoso.
	Contaram com a ajuda de uma equipe para fornecer tudo que precisam, certo?
	Sem dvida  respondeu ele.  Se no fosse por eles, provavelmente teramos morrido de sede e inanio antes do final da semana  exagerou, com bom humor.
	E os ovos?  indagou o reprter, voltando-se para Jennifer.  Estava no script atir-los no sr. Derring ontem?
Ela permaneceu em silncio durante alguns segundos, mas acabou respondendo.
	Aquela foi a descoberta de um mtodo gil de preparar omelete.
Charles e Mike riram.
	Alguns dos espectadores tiveram a impresso de que os atirou no sr. Derring por um motivo diferente. Acharam que parecia mais uma briga de namorados. Charles achou melhor intervir:
	As pessoas adoram inventar coisas assim para preencher suas mentes criativas.
	Chicago inteira est imaginando se existe um romance entre vocs, surgido depois do encontro na vitrine.
Jennifer abaixou a vista, mas Charles se manteve calmo ao responder:
	Digamos que eu gostaria de que existisse um.
	Como assim?  insistiu o reprter, curioso.
	 s o que tenho a dizer  declarou Charles.
	Jennifer?  perguntou o reprter.
	Tambm no tenho mais nada a declarar.
	Bem!  exclamou Mike, parecendo animado com o que eles no haviam dito.  Este  o ltimo dia da vitrine viva da Derring Brothers. Esto contentes por isso ou gostariam que a experincia durasse mais?
Ele apontou o microfone para Jennifer.
	Estou feliz que esteja terminando  confessou ela.  No tenho costume de ficar tanto tempo sob os olhos do pblico.
Quando Mike apontou o microfone para Charles, ele respondeu:
	Gostei da experincia mais do que imaginei que seria possvel. Na verdade, estou at planejando montar outra vitrine viva no ms de maio.
Mike se animou.
	E mesmo? E tambm ficar como modelo nela?
	Depender de alguns detalhes.
	Quais, por exemplo?  insistiu o reprter.
	No sei se Jennifer estar disposta a dividir a vitrine comigo novamente. Confesso que no estou disposto a fazer o trabalho com mais ningum.
Mike apontou o microfone para ela.
	O que acha da ideia, srta. Westgate?
Ela pareceu confusa.
	Prefiro esperar at maio para dar uma resposta.
Quando Mike e a equipe partiram, dez minutos depois, e os dois ficaram novamente sozinhos na vitrine, Jennifer perguntou:
	Por que disse aquilo sobre fazer outra vitrine em maio? Sabe muito bem que no aceitarei repetir isso. J avisei que pretendo sair da Derring Brothers.
	Mas ainda no saiu  salientou Charles.  Nunca ouviu dizer que a esperana  a ltima que morre?
	Voc quer que eu fique?  Jennifer se espantou.
	Claro que quero.
	Por qu? No ser mais fcil para ns dois se eu for embora?
	No seria mais fcil para mim.
	Por qu? Charles, por que falou ao reprter que gostaria que existisse um ro.mance entre ns? Aquilo foi algum truque publicitrio?
	No, Jennifer. No estou pensando em publicidade, apenas em ns dois. Eu...
Charles tentou toc-la, mas ela se afastou.
	No toque em mim! No sou mais a idiota que se entregou a voc  falou, com voz trmula.  Colaborei com essa promoo desde o incio, mesmo sem concordar.
Dei entrevistas  tev e respondi a perguntas embaraosas. Consenti nessa histria do romance porque parecia ser o que as pessoas queriam. At dormi com voc! E agora espera que eu fique na loja e aceite repetir tudo isso em maio? E quanto a mim? Meus sentimentos no contam? No sou atriz, droga! No posso interpretar um papel que no sinto!
Charles quase a enlaou nos braos para confort-la, mas aquele ltimo desabafo o deixou entristecido demais.
	Est bem!  Deu um passo atrs.  Pea a conta amanh mesmo! Farei uma boa carta de recomendao para voc.
Jennifer assentiu, contendo as lgrimas.
	Obrigada. Eu., sinto muito que tudo tenha de acabar assim.
"Ainda no terminou, Jennifer", pensou Charles.
	Posso sair amanh mesmo? No precisarei cumprir o aviso prvio?
	Seria recomendvel, mas no quero mant-la aqui por mais tempo do que voc deseja ficar.  Olhando para o relgio, acrescentou:  Est na hora do intervalo. Aproveite para retocar a maquiagem dos olhos.
	Est aborrecido comigo, no ?
	Sim  admitiu ele.
	No tive a inteno de deix-lo assim. Mas  que no posso mais lidar com essa situao, Charles. Est sendo demais para mim. Sei que quer manter nossa amizade, mas isso no ser possvel. Lamento desapont-lo.
Pelo modo como Jennifer o fitou naquele momento, Charles poderia jurar que ela se importava com ele. Talvez estivesse at apaixonada, pensou, em meio a um lampejo de esperana. Talvez pudesse usar isso para ganhar mais algum tempo, at conseguir elaborar uma maneira de convenc-la a ficar.
Jennifer se retirou em seguida. Segundos depois, ele a seguiu, pensando em cham-la de volta e dizer que no tivera inteno de ser rude. Porm, esbarrou em algum assim que passou pela porta. Era seu pai.
	Papai! Onde esteve? Tentei falar...
	Sim, eu sei. Ouvi seus recados na secretria eletrnica. Conseguiu fazer uma grande baguna, no?
Charles franziu o cenho.
	Sobre o que est falando? A campanha publicitria est sendo um grande sucesso e...
	No estou me referindo a isso  Jasper o interrompeu. Olhando em volta, para verificar se havia algum mais por perto, continuou:  Vamos at seu escritrio. Quero lhe falar em particular.
Enquanto se dirigiam ao escritrio de Charles, ele se ps a pensar no que estaria incomodando seu pai. Deu-se conta de que o velho Jasper estava muito prximo  porta e que talvez ele houvesse escutado sua conversa com Jennifer.
	Vai deixar Jennifer ir embora?  perguntou Jasper, assim que o filho fechou a porta do escritrio.
Charles teve a confirmao de que seu pai ouvira a conversa.
	E isso o que ela quer  respondeu.
	E voc tambm quer?
	No!
	Ora, ento faa alguma coisa!
	O qu, por exemplo?  indagou Charles.
	Pea para ela ficar.
	J fiz isso.
Apesar de ser bem mais baixo do que o filho, Jasper parecia ter o poder de sempre fit-lo nos olhos a um mesmo nvel. E foi isso que fez ao dizer:
	Ento diga que a ama!
Charles o olhou, surpreso. No era a primeira vez que o pai descobria algo a seu respeito antes mesmo dele prprio. Sim, o que sentia por Jennifer era mais do que paixo. Era amor!
	Como sabe que a amo?
	Desde a primeira vez em que vi o modo como a olhou, na seo de eletrodomsticos. Por que acha que tranquei vocs dois aqui durante uma noite inteira? Se eu deixasse a situao por sua conta, voc nunca perceberia o que est bem debaixo de seu nariz.
Charles no conseguiu conter o riso.
	Eu sabia que voc estava por trs disso!
	Claro, seu cabea-dura  afirmou Jasper.  Facilitei tudo para voc e veja s no que deu!
	Houve um mal-entendido. Jennifer pensou que...
	Esse tipo de problema pode ser facilmente resolvido se houver dilogo  Jasper o interrompeu.
	Mas foi isso que fizemos  insistiu Charles.  Conversamos, e eu pedi desculpa. Jennifer aceitou o pedido e tudo se esclareceu. Por outro lado, parece que ela quer terminar o romance. Como posso obrig-la a ficar se ela no me quer?
	As mulheres gostam de ouvir a palavra "amor", Charles. J disse isso a ela alguma vez?
Ele abaixou a vista.
	No. S me dei conta de que amo Jennifer h pouco tempo. Eu nunca me senti assim por ningum antes. Mas ser que ela tambm me ama? No  o que parece. Jasper balanou a cabea, inconformado.
	Charles, no deixe o orgulho atrapalh-lo. Como nos negcios, no amor voc tem de correr riscos.
Ele assentiu.
	Jennifer parece estar confusa, como eu  explicou.
	A princpio, o amor parece mesmo causar essa confu so. E normal.
	Mas se eu confessar que a amo, ela pode no entender e pensar que estou tentando usar isso como pretexto para mant-la por perto, para fins publicitrios  argumentou Charles.  No  o tipo de conversa que poderemos ter na vitrine, com todo mundo nos olhando.
	Sim, tem razo  anuiu Jasper.  Encontre uma maneira de ficar sozinho com ela.
	Ok, mas quando? Ficamos aqui at as dez da noite e depois Jennifer se apressa para voltar para casa. No tenho certeza se ela aparecer para trabalhar amanh. Jennifer est to determinada a fugir de mim que  provvel que at saia da cidade.
De sbito, uma ideia surgiu na mente de Charles. Jasper o fitou com o mesmo brilho de perspiccia no olhar, e ambos trocaram um breve momento de telepatia.
	Se eu fingir que perdi algo na vitrine, e voc puder cuidar do resto, papai...
	Tranc-los na loja?  O velho Jasper sorriu.  Oh, j estou ficando com prtica nisso.
	Poderia deixar a porta do meu escritrio aberta?
	Sim, claro.
	Otimo.  Charles respirou fundo, mais esperanoso. Estreitando os olhos, insistiu:  Como soube realmente que eu a amava?
	Pela maneira como voc a olhava, sempre que se encontravam. E no se preocupe porque Jennifer tambm o ama. Os olhos dela brilham quando voc est por perto.
	Nunca percebi isso.
	Seus sentidos ficaram embotados depois de todas as mulheres fteis que passaram por sua vida. Jennifer  uma dama e, exceto por sua me, duvido de que voc tenha conhecido alguma outra antes. Mulheres assim exigem uma maior sensibilidade por parte dos homens. Mas voc acabar aprendendo.
Charles sorriu, orgulhoso da sabedoria do pai.
	E um homem admirvel, sabia, Jasper Derring? brincou.
	Pois no acharei o mesmo de voc, se no convencer Jennifer a se tornar sua esposa.
	Esposa? Oh, entendo. Tambm terei de me casar com ela.
	Mas  claro que sim!  exclamou Jasper, quase indignado.  No  o que quer?
	Sim, muito. Mas primeiro quero saber se ela me ama.
	Pelo visto, ainda no havia considerado a ideia de casamento  observou Jasper, perspicaz como sempre. 
 E quanto  vitrine de casamento que pretende montar em maio?
	Como sabe disso?  Charles se espantou.
	Gosto de me manter sempre bem informado. O que o fez pensar em montar uma vitrine desse tipo?
	Acho que foi porque no ms de maio costuma haver muitos casamentos.
	E quer ser modelo da vitrine com Jennifer?
	Sim, mas ela no aceitou a ideia. Nem cheguei a mencionar que o tema seria casamento.
Jasper balanou a cabea.
	Voc  mesmo um insensvel  ralhou.  Aposto que teve essa ideia de casamento porque...  Agitou as mos, querendo que o filho terminasse a frase.
	Porque quero me casar com Jennifer. Ok, Ok, tem razo. Tranque-me na loja com ela, e farei a proposta de casamento.
	At que enfim!  exclamou Jasper, erguendo as mos para o alto.  Vou falar para sua me j ir reservando o local onde faremos a recepo. Precisa marcar a data. Que tal no prprio ms de maio?
	Papai!
	Est bem, j estou indo.
Charles ficou olhando o pai se afastar, todo animado com a perspectiva de ganhar uma nora praticamente escolhida por ele. O velho Jasper no tinha mesmo jeito. Acertara em cheio ao notar seu interesse por Jennifer. Sua Jennifer...
Dali em diante, toda sua felicidade dependeria da resposta proferida por aqueles lindos lbios.

CAPITULO IX

Jennifer sentou-se na cama, dedicando-se  difcil tarefa de se concentrar na leitura. Estava vestida com uma camisola e um robe lils, selecionads para o ltimo turno da vitrine.
No falara muito com Charles durante toda a noite e evitara at olhar para ele. No queria pensar no que estaria perdendo depois que sasse da loja e da vida dele.
J era quase dez horas e o nmero de curiosos havia diminudo bastante do lado de fora. Por volta das sete horas, um grupo de mulheres havia aparecido com um cartaz, onde se lia: "Foi melhor do que as novelas! Sentiremos falta de vocs!"
Ao ler aquilo, ela e Charles no haviam conseguido permanecer srios.
Faltavam poucos minutos para as dez horas quando Charles comeou a andar pelo carpete, parecendo procurar algo no cho.
	O que foi?  perguntou Jennifer, deixando o livro de lado.
	Perdi uma das abotoaduras que usei com o smoking esta noite. Era de puro ouro.
	Talvez tenha cado no vestirio  sugeriu ela.
	No  respondeu Charles, olhando embaixo da cama.  Foi justamente l que me dei conta de que a havia perdido. Eu e meu assistente vasculhamos tudo, mas no a encontramos.
	E por que s comeou a procur-la agora?  indagou Jennifer, desconfiada.
	Porque no queria que as pessoas nos vissem abaixados, em uma situao ridcula. Agora que elas j se dispersaram, poderemos procurar a abotoadura. Pode me ajudar, por favor?
	Sim, claro  respondeu ela, com um suspiro.  Ei, mas no quero ficar trancada aqui outra vez.
	Acha que seria possvel algo assim acontecer duas vezes?  questionou Charles.  Alm do mais, iremos encontr-la mais rpido se procurarmos juntos.
Jennifer saiu da cama e comeou a vasculhar o tapete. Porm, logo um pensamento inesperado passou por sua mente.
	Ei, mas se perdeu a abotoadura quando estava usando smoking, ento ela caiu na parte da vitrine onde est montada a sala de jantar, e no aqui!
Charles parou de procurar, evitando olhar para ela ao dizer:
	Tem razo. Por que no pensei nisso antes? Ento  melhor irmos para a outra vitrine, procurar por l.
Ficando de p, segurou a mo de Jennifer e conduziu-a at a vitrine montada como sala de jantar. Assim que passaram pelo corredor, do lado de fora, a primeira coisa que ela percebeu foi que no havia mais ningum por perto.
	Charles, a loja j est vazia!  exclamou, aflita.  Por que no procuramos isso amanh? Quero sair daqui antes que fiquemos trancados novamente!
Ele parou e olhou em volta, com calma. De fato, as portas j estavam todas fechadas.
	Ainda no foram trancadas, no ?  indagou Jennifer.
Exasperada, correu at uma das portas e tentou abri-la.
	Est trancada!  quase gritou. Olhou para o relgio.  E s passaram dois minutos das dez horas. No  possvel que no haja mais ningum por aqui.  Correu at os ele vadores.  Ol? Tem algum a?
No houve nenhuma resposta. A loja estava com aquela mesma atmosfera fantasmagrica do dia em que os dois. haviam ficado trancados l dentro.
Jennifer se sobressaltou quando Charles se aproximou por trs e segurou-a pelos ombros.
	No adianta  disse ele.  Estamos trancados de novo.
	Mas como  possvel?  Ela se virou para olh-lo.  Voc disse que isso no poderia acontecer duas vezes. Notou um brilho diferente nos olhos de Charles e logo entendeu o que havia acontecido.  Foi voc quem armou tudo isso!  acusou-o.  No perdeu nenhuma abotoadura, no ?
	No  confessou Charles, sem se alterar.
	Seu... seu traidor!
Jennifer cerrou os punhos, tentando esmurr-lo, mas Charles a segurou pelos pulsos.
	Por qu?  perguntou ela.  Para me levar para a cama mais uma vez?
	Para termos oportunidade de conversar a ss  corrigiu ele.
	Por que simplesmente no pediu para falar comigo? No havia necessidade de armar tudo isso de novo.
	Tive receio de que voc fosse fugir. Mal falou comigo desde aquela entrevista pela manh. Eu sabia que voc no iria querer me ouvir.
Jennifer se afastou dele.
	E o que tem a me dizer?  perguntou, virando-se de costas.
	Jennifer, olhe para mim.
	No!
Ela o ouviu respirar fundo.
	Como poderemos conversar se no nos fitarmos nos olhos?
	Posso ouvi-lo muito bem  argumentou ela.  No quero olhar para voc! Trancou-nos aqui deliberadamente para me seduzir de novo. Pois dessa vez no vai funcionar!  bradou, fechando o robe com mais firmeza, em torno de si.
	No estou tentando seduzi-la!  replicou Charles, impaciente.  Quero apenas dizer que te amo, Jennifer!
Ela arregalou os olhos. Que novo tipo de truque seria aquele?
	O que est querendo afinal?  perguntou, sem se virar para ele.
	Eu te amo  repetiu ele.  S admiti isso para mim mesmo h pouco tempo. Mas acho que comecei a te amar desde a primeira vez em que nos vimos.
	Tem certeza?  Devagar, Jennifer se virou para ele.
	Claro que sim!  Charles se aproximou e segurou-a pelos ombros.  Eu te amo tanto que no sei o que fazer. Acho que deveramos nos casar.
A felicidade que comeava a surgir no corao de Jennifer de repente se esvaiu.
	No, Charles. Nunca daria certo. Isso  ridculo. Como pode sequer considerar...
	Ridculo?  repetiu ele, indignado.  Por qu? Voc no me ama?
	Porque pertencemos a mundos diferentes. Voc  um dos empresrios mais bem-sucedidos de Chicago, e eu sou apenas uma garota de classe mdia que nem terminou a faculdade. Como poderei entrar no seu crculo social?
Ele fechou os olhos por um momento, esforando-se para manter a pacincia.
	No diga tolices, Jennifer. Poder terminar a faculdade se quiser. Quanto  classe social, meu pai a considera a mulher mais refinada que ele j conheceu, depois de minha me. E concordo plenamente com ele. Ns podemos at ter dinheiro, mas no somos to sofisticados assim. Veja meu pai, por exemplo. Foi ele quem nos trancou aqui pela primeira vez, tentando nos unir. Particularmente, acho que foi uma brincadeira de mau gosto, mas deu certo, no deu? Quando estamos juntos, no importam nossas contas bancrias nem o tipo de amizades que mantemos. S o que desejamos  estar juntos.
Jennifer sentiu-se estranhamente feliz, mas ainda estava com receio de ter esperana.
	Estou confusa  confessou.  Voc nunca sequer mencionou a palavra "casamento" antes. Nem mesmo quando fizemos amor. No pensei em ouvi-lo dizer isso um dia. Como decidiu de repente que queria se casar comigo?
	Eu estava to confuso quanto voc  confessou Charles. Aps uma breve pausa, continuou:  A promoo da vitrine fez tanto sucesso que achei vlido repetir o evento em maio. A ideia me ocorreu no dia em que ficamos presos aqui. A princpio, pensei em contratar um casal para posar como noivos na vitrine, mas logo cheguei  concluso de que minha prpria presena atrairia mais ateno novamente.
Jennifer continuou a olh-lo, em silncio.
	Mas quando pensei quem poderia ser minha noiva durante o casamento de mentira, tive certeza de que no queria outra pessoa alm de voc. Porm, depois que fizemos amor, percebi que no desejava um casamento de mentira. Teria de ser de verdade! Quando conversei com meu pai, hoje pela manh, tudo se tornou muito claro em minha mente. J no tenho mais dvidas, Jennifer. Quero que seja minha esposa. O que me diz?
Os olhos de Jennifer se encheram de lgrimas.
	Sim, quero me casar com voc  respondeu.  Mas se pensa que aceitarei me casar dentro de uma vitrine, est enganado!
Apesar da fria de Jennifer, o rosto de Charles se iluminou com um sorriso. Puxando-a para si, disse:
	No se preocupe. No pretendo transformar nosso casamento em uma badalao pblica. Eu estava apenas explicando como me ocorreu a ideia da vitrine de maio e de nosso prprio casamento.
	Mas voc disse ao reprter essa manh que gostaria de me ter na vitrine com voc, em maio  lembrou ela.
	Aquilo foi apenas uma maneira que encontrei de mostrar que eu queria t-la por perto. Por outro lado, no mencionei nada especfico sobre casamento. Portanto, poderemos mudar o tema, se quisermos.
Jennifer sorriu de pura felicidade.
	Eu te amo, Charles  declarou.  H muito tempo.
Ele tambm sorriu, feliz por finalmente ouvir aquilo.
	Admiti isso para mim mesma depois da noite que passamos juntos. Mas pensei que voc estivesse encarando o fato como um envolvimento passageiro, como o que teve com Delphine.
Charles a abraou com mais fora.
	Nunca tive tanta certeza sobre meus sentimentos  afirmou.  Passei o dia inteiro aflito, com receio de perd-la. Voc me d a sensao de que existe uma base slida em mim, Jennifer, e que no estou destinado a ter uma vida superficial.
Ela suspirou, comovida.
	Nunca pensei que o ouviria dizer isso. Estou to feliz...
	Pois eu a farei ainda mais  prometeu ele.  No chore, meu amor. Que tal me dar um beijo, em vez de ficar a chorando?  brincou.
Jennifer sorriu, enxugando as lgrimas. Beijaram-se longamente, mas no demorou para que o desejo se acendesse em ambos.
	As cmeras de segurana esto ligadas?  perguntou Jennifer.
	No sei. No discuti esse detalhe com meu pai. Mas pedi que ele deixasse meu escritrio destrancado. L no existe nenhuma cmera de segurana e h um grande sof...
	Ento, vamos para l  sugeriu ela, sem hesitar.
Charles sorriu com charme, puxando-a pela mo. A noite seria deles mais uma vez.
Na manh seguinte, depois de uma ardente noite de amor, Charles tomou uma chuveirada no banheiro executivo masculino, e Jennifer fez o mesmo no feminino. Haviam escolhido trajes novos na seo de roupas.
Quando os funcionrios comearam a chegar, Charles j estava pronto, trajando um elegante terno cinza. Fazia poucos minutos que voltara para o escritrio quando seu pai entrou de repente.
	Ol, papai!
	E ento?  Como sempre, Jasper foi direto ao assunto.
	Est tudo acertado  anunciou Charles, orgulhoso.  Jennifer e eu vamos nos casar.
	Meus parabns! No imagina quanto fico feliz em ouvir isso. Sua me tambm ficar nas nuvens quando receber a notcia. No poderia nos dar um melhor presente de Natal.
Nesse momento, Jennifer bateu de leve  porta e entrou no escritrio. Estava maravilhosa, vestida com um tailleur verde-gua que combinava com a cor de seus olhos. Charles notou que ela estava maquiada e com os cabelos impecveis, apesar de no ter ido  maquiadora e ao cabeleireiro. Porm, ao notar a expresso sria no rosto dela, ficou ligeiramente preocupado.
	Bom dia, sr. Derring  falou ela, com formalidade, para o pai dele.
Jasper sorriu e tomou a mo dela, cumprimentando-a com animao.
	Bom dia, Jennifer!
Ela se manteve sria ao olhar para Charles e dizer:
	Vim lhe trazer minha carta de demisso.
Ele franziu o cenho, preocupado.
	Mas por qu, Jennifer?
Ela olhou de um para o outro e deu de ombros.
	Bem, diante das circunstncias...  Lanou um olhar hesitante para Jasper.  Acho melhor no continuar trabalhando aqui.
Charles engoliu em seco, sem saber o que dizer. Tentando arriscar um palpite sobre o comportamento de Jennifer, perguntou:
	Est querendo dizer que no  bom continuar aqui por estarmos noivos?
Ela assentiu, com um sorriso tmido. S ento ele respirou aliviado.
	Puxa, voc me assustou! Pensei que havia mudado de ideia quanto ao casamento.
Jennifer riu.
	Desculpe-me. Eu s no tinha certeza se deveria voltar normalmente para o trabalho hoje...  Ela olhou para Jasper.
Charles percebeu que Jennifer ainda no estava segura quanto  aprovao de seu pai. O prprio Jasper pareceu notar isso, pois resolveu intervir.
	 sempre bom manter Charles em suspense, minha cara  disse, com uma piscadela.  Afinal, ele  jovem demais para ter um enfarte, como eu. Portanto, aproveite para test-lo enquanto pode  brincou.
Jennifer enrubesceu.
	Bem, eu...
	A me dele est louca para conhec-la, querida  declarou Jasper, para deix-la mais  vontade.  Contei muitas coisas a seu respeito, e ela a viu pela tev. Como eu, acha que voc  perfeita para Charles. Ela sorriu, lisonjeada.
	Espero que no fiquem desapontados  disse, com modstia.
Jasper voltou a segurar a mo dela.
	Ainda no me desapontou. Quando vi vocs dois juntos e o modo como se olhavam, soube que haviam nascido um para o outro. Eu sempre quis que meus filhos se casassem com pessoas que no nasceram em bero de ouro e que reconhecessem o verdadeiro valor do trabalho. No nasci em uma famlia rica nem minha esposa. Meus filhos, por outro lado, tiveram tudo muito fcil, e ns os mimamos demais em certos aspectos.
Charles arqueou as sobrancelhas.
	Mas Charles  o mais tranquilo deles  salientou Jasper.  Voc fez uma boa escolha e ser bem-vinda na famlia.
Os olhos de Jennifer se encheram de lgrimas.
	Obrigada, sr...
	Pode me chamar de Jasper ou de papai, se preferir  pediu ele, parecendo estar to feliz quanto os dois.  Quando ser a data do casamento?
Jennifer olhou para Charles.
	Ainda no pensamos nisso...
	Mas papai j pensou  lembrou Charles.  Ele sugeriu o ms de maio.
	Est bom para mim  concordou Jennifer.  Assim teremos tempo suficiente para preparar tudo com calma.
	timo!  aprovou Jasper.  Por que no tiram o dia de folga?  sugeriu.  Afinal, passaram uma semana inteira praticamente confinados em uma vitrine. Tirem o dia de folga e... faam o que mais gostarem. Embora eu nem imagine o que possa ser  insinuou, com um brilho de malcia no olhar.
Charles sabia muito bem que o pai j estava pensando em ter netos.
Quando Jasper se retirou, minutos depois, Charles fechou a porta para ele e Jennifer terem um pouco mais de privacidade.
	Acha que aguentar ter um sogro to enrgico assim?  perguntou, abraando-a.
Jennifer riu.
	Sempre gostei de Jasper. Quando nos casarmos, ele voltar a ateno para a perspectiva de casamento dos ou tros filhos, voc vai ver.
	 provvel  anuiu Charles.  Por falar em casamento, recebi um carto-postal de Delphine hoje.
	Delphine?
	Sim, ela e o professor se casaram em Nevada, h poucos dias.
	Os dois se casaram?  Jennifer ficou atnita.  Bem, espero que sejam felizes. Mas quem poderia imaginar que aqueles dois levariam o relacionamento to a srio?
	O mesmo se aplica a ns, no?  Charles arqueou uma sobrancelha.  Que tal seguirmos o conselho de meu pai, e tirarmos o dia de folga?
	Aceito. Mas para onde iremos e o que faremos?  perguntou Jennifer, ajeitando a gravata dele.

	O que voc quiser  respondeu Charles, com voz rouca.
	Neste caso, no precisamos ir a lugar algum. Esse sof estava to confortvel ontem... S o que precisamos fazer  trancar a porta.
	Estou adorando essa sua ousadia.
Jennifer riu.
	Sempre pensei que teria uma vida montona e aqui estou eu, seduzindo o presidente da Derring Brothers dentro de seu prprio escritrio. Reconheo que  uma mudana e tanto.
Ento, Charles sussurrou-lhe ao ouvido:
	Uma mudana particularmente deliciosa...

FIM



